Archive for março \31\UTC 2008

Paulson apresenta seu plano

março 31, 2008

A intervenção do Fed na operação de resgate do Bear Stearns mudou o jogo: o salvamento dos credores do banco de investimentos na operação abriu as portas para a supervisão e regulação das atividades dessas empresas.

Até aqui, tudo bem. Existe consenso de que estamos passando por uma crise quase sem precedentes – “10 dias que mudaram o capitalismo“, segundo David Wessel, do Wall Street Journal. No Financial Times, Martin Wolf escreveu que morreu o sonho do capitalismo global baseado em mercados livres.

Mas se a trajetória de liberalização de mercados de capitais foi interrompida, a questão agora é saber o que vai tomar o seu lugar. O secretário do Tesouro Henry Paulson está lançando o debate, que tem tudo para ser altamente polêmico. A sua proposta, que já estava em elaboração antes do mais recente episódio da crise, mal chegou e já está sendo violentamente atacada como uma reforma de mentirinha, um ataque preventivo com o objetivo de evitar reformas mais profundas.

A discussão é muito boa. As dificuldades de se implementar qualquer coisa em um ano eleitoral são enormes, mas já tem gente discutindo alternativas de investimento com base no plano.

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Os preços das commodities

março 28, 2008

O New York Times traz hoje matéria que ilumina um aspecto obscuro mas importante dos mercados globais de commodities, a relação entre os preços dos contratos futuros e dos mercados a vista. Diz a teoria que esses preços devem convergir na medida em que os contratos se aproximam do vencimento, mas não é isso que tem acontecido com a soja, milho e trigo negociados em Chicago. Os preços nas bolsas de futuros têm ficado consistentemente acima dos preços no mercado a vista. Isso é curioso, pois parece que existe uma oportunidade de arbitragem que não está sendo aproveitada. E pode ser grave, pois indica que os mercados futuros não estão cumprindo o seu papel.

Esse papel é hoje bem mais importante do que era até poucos anos atrás, pois a alta das commodities está criando problemas sérios ao redor do globo. A Economist da semana fala sobre os vários países do mundo que estão taxando suas exportações de alimentos de maneira a garantir o suprimento dos seus mercados domésticos. A revista alerta para os riscos: elas desmotivam os fazendeiros, levam a perda de mercados internacionais, e reforçam ainda mais a tendência de alta desses produtos nos mercados globais.

A Argentina é um exemplo das tensões que esse tipo de política provoca. Depois de semanas de lock-out dos agricultores, a situação do abastecimento em Buenos Aires é grave. Falta tudo, até mesmo a sacrossanta carne das parrillas porteñas. A presidenta Cristina Fernández de Kirchner fez ontem um duro discurso, mas os jornais argentinos viram ali uma abertura para a negociação. Veremos.

Ações para o longo prazo

março 27, 2008

A matéria do Wall Street Journal que mencionamos em um post anteiror está dando o que falar na blogosfera financeira. Há quem acuse o Journal de induzir seus leitores a conclusões erradas (A dash of Insight), e já tem gente preocupada com as prováveis “soluções” do pessoal de Washington (TPM Café).

Alguém poderia concluir que depois de dez anos de estagnação o mercado estaria pronto para dez anos de euforia, mas talvez não seja tão simples assim. O blog Angry Bear traz hoje um gráfico que mostra que no longo prazo o índice preço lucro geralmente oscila entre 10 e 20. Por esse critério o mercado ainda tem muito para cair

Crise de abundância

março 27, 2008

A crise das retenções de exportação na Argentina, que engrossou bastante nos últimos dias, tem alguns aspectos curiosos. Um deles — como observou Miriam Leitão — é a solidariedade da população urbana aos agricultores, que ontem resultou em choques entre “Kirchneristas” e “caceroleros”. Há indicações de que os conflitos podem piorar. Os Kirchneristas estão convocando para um grande ato de apoio à política econômica da presidenta hoje a noite em Buenos Aires.

O economista Daniel Fernández Canedo, que mantém um blog no site do jornal Clarín, explica o que está acontecendo: as retenções sobre exportações de soja são uma fonte importante de receita para o estado argentino, que faz um grande esforço fiscal. A idéia é evitar a emissão de dívida, e juntar divisas para importar energia no inverno. Por outro lado, a retenção serve também para regular os preços dos produtos agrícolas no mercado interno, e seria uma espécie de compensação paga pelos fazendeiros em troca dos subsídios que recebem na taxa de câmbio e no preço dos combustíveis. Em outras palavras, é um rolo. E esse rolo acontece exatamente em um momento de preços recordes para a soja. Coisas da heterodoxia.

A fracassada privatização da CESP

março 26, 2008

O leilão de privatização da CESP (hoje de propriedade do governo do estado de São Paulo) foi cancelado por falta de compradores. Aparentemente o que pesou na decisão dos potenciais investidores foi a incerteza regulatória, já que as concessões das mais importantes usinas hidrelétricas da empresa (Jupiá e Ilha Solteira) vencem em 2015 e não há clareza quanto às condições de renovação dessas concessões.

Não somos fãs da dietrologia – a arte de procurar motivos obscuros por trás das coisas mais óbvias – mas parece razoável desconfiar de motivações políticas por trás da má vontade do governo federal (Financial Times). Só não dá para entender porque o governo do estado de São Paulo decidiu seguir em frente com um leilão inviável.

Um detalhe: o mesmo problema de incerteza quanto à renovação de concessões que vencem nos próximos anos atinge também empresas como Cemig e Eletrobrás (Folha).

Ainda o Bear

março 26, 2008

Martin Wolf escreve sobre o resgate do Bear Stearns, e levanta uma série de questões importantes (em inglês no Financial Times, em português no Valor Econômico). Ao apoiar o resgate do banco de investimentos e aceitar risco de crédito no seu balanço, o Fed decretou o fim da onda global de liberalização de mercados financeiros. Terá que haver mais regulação daqui para a frente, e ficará muito mais difícil usar o exemplo americano como caso de sucesso de mercados livres e robustos.

E o pior é que a crise ainda não acabou. Wolf fala em uma recessão longa e profunda. É bom continuar de olho nos mercados de crédito para ver se as medidas adotadas pelo Fed estão funcionando.

Update: O secretário do tesouro Henry Paulson falou hoje sobre a sua visão do novo ambiente regulatório.

Década perdida

março 26, 2008

Suponhamos um investidor que tenha comprado mil dólares em ações das 500 empresas do índice S&P em abril de 1999. Este infeliz teria hoje os mesmos mil dólares, aparentemente contradizendo a tese de que as ações são o melhor investimento de longo prazo. Esta observação está na capa do Wall Street Journal, em uma matéria que merece ser lida. Alguns estudiosos citados no artigo, como o professor Jeremy Siegel, estão otimistas para os próximos anos, mas outros, como Robert Shiller, estão mais preocupados com os fundamentos da economia.

Entre os investimentos que foram melhor de 1999 para cá estão as commodities e as ações de mercados emergentes. O Ibovespa, por exemplo, teve um desempenho brilhante: aquele mesmo investimento de mil dólares valeria hoje, pelos nossos cálculos, US$ 5537.

Update: o jornal Valor Econômico traz hoje versão em português da matéria do WSJ.

Comentário Roberto Teixeira da Costa

março 25, 2008

Gangorra ou Montanha Russa?

O prestigioso jornal The New York Times publicou em sua edição de 19 de março, provocativa matéria com o título “Se você não consegue entender a crise de crédito, junte-se ao clube.”
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Comentário Semanal

março 25, 2008

O mercado americano reagiu com euforia ao anúncio, na manhã de segunda-feira, de uma revisão substancial na oferta do banco J.P. Morgan pelo controle do banco de investimentos Bear Stearns. O índice Dow Jones subiu 1,52% e o S&P 500 subiu 1,53%, puxados pelas ações dos bancos. A outra notícia do dia foi um dado positivo de vendas de residências, que ajudou as ações de empresas do setor habitacional. Aqui no Brasil o Ibovespa fechou em alta de 1,40%.

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Conversa com o gestor

março 24, 2008

Conversa com Francisco H. Gros, gestor do fundo Upside.

BINV: Como você vê a posição do Brasil nessa crise?

FHG: Eu estou otimista com o Brasil, partindo da premissa que continuaremos num mercado de alta de commodities num prazo mais longo, apesar da forte queda das commodities agrícolas e metálicas no dia de ontem.

BINV: E quais as bases desse cenário?

FHG: Continuo acreditando que estamos num grande ciclo de alta das commodities, cenário do qual o Brasil se beneficiaria. No lado real da economia, os grandes produtores de commodities como a China, Canadá, Chile e África do Sul estão enfrentando problemas, de logística, climáticos e de mão de obra, cada um na sua magnitude, afetando a oferta dos seus produtos. No lado da demanda, China e Índia são grandes consumidores globais e provavelmente continuarão nesse status quo.

Alem disso, do lado financeiro, de fluxo de capitais, fundos dedicados de commodities têm recebido grande entrada de capitais.

Apesar desse cenário, os mercados são muito dinâmicos e as reavaliações da situação são necessárias constantemente. E vamos em frente.