Comentário Roberto Teixeira da Costa

MI BUENOS AIRES QUERIDO!

Não tem sido fácil analisar a situação atual dos nossos vizinhos argentinos, que nos últimos anos vêm praticando políticas que agridem o pensamento ortodoxo.

Passei dois dias da semana passada em Buenos Aires, num programa intenso de entrevistas e reuniões. Se de um lado a situação do país vizinho é complexa, do outro a idéia que estão diante de uma crise iminente e que vão estourar não parece realista.

A política cambial tem mantido um peso desvalorizado, apesar de ser normalmente um sistema de câmbio flutuante como no nosso país. A riqueza do seu campo agrícola e a enorme demanda por suas “commodites”, particularmente a soja, tem provocado uma forte taxa de crescimento. Vale lembrar que o crescimento dos últimos anos foi fortemente ajudado pela capacidade ociosa existente e que agora chega ao seu limite, pois não tem havido novos investimentos. No entanto, para compensar uma taxa de câmbio favorável ao exportador (diferente do nosso país) impuseram uma política de retenções de divisas que penaliza os produtores de grãos.

Quando lá estive, essa retenção, que nada mais é que um imposto cobrado dos exportadores, foi aumentado para 44%. O governo acha que os exportadores de soja estão “ganhando demais”. Esse último aumento provocou uma reação violenta da área rural inconformada com esse gravame. Não existe diálogo entre o governo e os homens do campo, que agora resolveram ir as últimas conseqüências, parando de exportar, no chamado “Lock Out”. Vão promover um “tratoraço”, bloqueando rodovias e avenidas importantes.

Há uma diferença substancial entre a taxa de inflação oficial e aquela que é percebida pelos empresários e pelos consumidores. Os números variam, mas diria que com maior probabilidade a inflação estaria na casa dos 18%. O governo subsidia várias atividades para coibir aumentos de preços que seriam ainda maiores se estivessem liberados. Nos transportes e na energia esses subsídios são muito relevantes. Sabemos que essas distorções não podem ser mantidas por um prazo muito longo, pois as forças de mercado acabam se impondo.

No lado positivo os números macroeconômicos, como no caso brasileiro, foram bons em 2007. Evidentemente os preços de matérias primas são o fator determinante da benesse argentina.

A arrecadação e o resultado fiscal foram positivos. O superávit primário está na casa de 3,5% do PIB. As necessidades de financiamento para 2008 estão na casa dos 5,3 bilhões de dólares, que não parece algo difícil de conseguir. A taxa real de juros é negativa e o desemprego é o mais baixo dos últimos anos. As reservas internacionais projetadas estão acima de U$ 50 bilhões e estimam crescimento do produto em 7,4% contra 8,7% em 2007.

A relação com o Brasil está numa boa fase e não senti a animosidade a que alguns se referem como a “invasão de brasileiros!”, seja como compradores de empresas argentinas ou pela agressividade do nosso setor exportador de manufaturados, que, de qualquer maneira, vem aumentando seu diálogo com seus pares argentinos.

No mais, Buenos Aires continua linda!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: