Passo a passo da crise / Comentário semanal

O Financial Times não é um mau jornal, mas tem coisas que só o Wall Street Journal faz. Como o relato passo a passo da crise do Bear Stearns, por exemplo. Leitura obrigatória.

Segue abaixo o comentário semanal da Benchmark Investimentos, enviado aos nossos clientes na noite de segunda-feira.

Os mercados hoje tiveram muita volatilidade, com o Dow Jones fechando com alta de 0,18%, o S&P500 com queda de -0,90% e o Nasdaq com queda de -1,60%. É importante notar que a alta do Dow Jones, um índice bastante concentrado, refletiu a performance do JP Morgan que faz parte do índice e subiu 10,3%. Ainda há muitas dúvidas no ar sobre as medidas anunciadas pelo Fed no domingo, assim como sobre a operação de compra do banco de investimentos Bear Stearns. Ontem à noite, durante a conference call que o JP Morgan fez em NY para explicar a operação, os analistas ainda pareciam um pouco perdidos. Muitas perguntas foram feitas a respeito da avaliação que chegou ao preço de US$ 2 por ação. Uma analista comentou que se todos fossem avaliar os balanços dos outros bancos de investimento da mesma forma, provavelmente o valor deles seria a metade do atual.

Esta operação mais parece uma liquidação organizada do Bear Stearns do que uma venda propriamente dita. Isto pode ser encarado como um sinal do Fed de que tentará proteger o sistema financeiro, sem, contudo, proteger os investidores e banqueiros. O chairman do banco, James Cayne, tinha uma fortuna em ações do Bear Stearns que valia US$ 448 milhões no dia 29 de fevereiro último. Considerando o valor de US$ 2,00 por ação, essa fortuna está reduzida hoje a US$ 11 milhões.

Com tanta incerteza, os mercados estão retraídos, sem ninguém querer tomar posição ou muito risco. E uma pergunta muito corriqueira no momento é quem será a próxima instituição a apresentar problemas. Só para dar uma noção do estado de espírito, as ações da Lehman Brothers caíram hoje quase 20%.

A Bolsa brasileira sofreu bastante, com o Ibovespa caindo -3,19%. Na contramão da desvalorização do dólar, o mercado de câmbio local apresentou alta com a taxa fechando a R$ 1,725 por dólar. Muito se falou hoje sobre saída de investidores estrangeiros devido a rebalanceamento de carteiras e diminuição de riscos.

Hoje, sem dúvidas, as atenções estão todas voltadas para a crise na economia americana. O paper “Monetary Policy Alternatives at Zero Bound: An Empirical Assessment” escrito por Bernanke e dois co-autores em 2004, discute como um banco central deve agir para evitar uma armadilha de liquidez como a vivida pelo Japão na década de 80. O Fed vem fazendo exatamente o que esse paper recomenda para quando a política monetária sozinha não é mais suficiente para resolver o problema. Entre os instrumentos não ortodoxos está o uso do balanço do Fed e a compra em grande volume de categorias de títulos problemáticos.

Se analisarmos os novos instrumentos anunciados pelo Fed, vemos que ele aceita como colateral de seus empréstimos para os bancos títulos de hipoteca e outros ativos que têm apresentado problemas de liquidez e crédito, passando assim para o balanço do Fed o risco desses títulos, mesmo que temporariamente.

No caso do financiamento da compra do Bear Stearns não foi muito diferente, pois o Fed está garantindo um colchão de até US$ 30 bi de perdas do banco. Ou seja, até esse limite, os títulos ruins do Bear Stearns não iriam para o balanço do JPMorgan e sim para o balanço do Fed. Podemos esperar mais medidas pouco ortodoxas como estas pela frente.

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