Comentário Roberto Teixeira da Costa

P E R S P E C T I V A

Abril/2008

Viajando, viajando, viajando…

Três viagens consecutivas ao exterior em pouco mais de duas semanas realmente não é algo que recomendo.
Porém, as circunstâncias assim me obrigaram. Vou aqui destacar os pontos de maior relevância, começando por Lima, numa reunião da Diretoria Internacional do CEAL. O Peru passa por uma fase muito favorável que não vem de agora, mas tem sido muito bem capitalizada pelo seu atual mandatário, Presidente Alan Garcia. Tivemos oportunidade de conhecê-lo em uma entrevista na companhia de 15 associados do CEAL. Impressiona sua crença na economia de mercado, no papel dos empresários e na abertura comercial. Foi bastante crítico do papel da esquerda e de algumas ONGs que na sua opinião estão querendo reeditar a “guerra fria”, já superada. Falou da importância dos investimentos e do chamamento para atrair investidores, particularmente de nossa região, e citou contatos com nosso Presidente nesse sentido. Destacou as grandes oportunidades que o Peru oferece no setor dos minérios e da agricultura. Apesar do bom momento, tem sido difícil falar ao coração dos peruanos, razão pelo qual seu índice de popularidade é baixo, levando-se em conta a situação favorável do país.
Nos debates da reunião do CEAL, destacaria o painel que participei com a presidente do The Conference Board, Gail Fosler, que se mostrou menos preocupada com os desdobramentos da crise financeira e sua repercussão na economia norte-americana.
Sim, os Estados Unidos vão ter uma parada de crescimento, mas nada que possa ser uma recessão prolongada! Interessante seu comentário sobre o preço das “commodities”. Atribui à especulação 70% da valorização de algumas delas. Em sua visão, somente 30% desse aumento de preços seriam justificáveis por alterações efetivas de mercado.
Levantei esse assunto num debate sobre o futuro das “commodities” na reunião do World Economic Forum em Cancun, de onde acabo de regressar.
Muito embora o painel constituído de especialistas, inclusive com uma autoridade chinesa, reconhecesse que há um componente especulativo na formação dos preços, o percentual de 70% pareceu exagerado. Portanto, fiquei com a impressão que não devemos esperar grande acomodação nos preços.
Na reunião do WEF participei como debatedor de dois diferentes painéis, um sobre mercado de capitais e o outro sobre a previdência social.
No que toca ao mercado de capitais, chama a atenção como nosso desenvolvimento nessa área é destacadamente superior ao de outros países do nosso porte. Estamos efetivamente num estágio bem mais avançado que o México, por exemplo. Por sua dimensão econômica seria de esperar que eles tivessem um mercado mais desenvolvido. Estar muito próximo dos Estados Unidos tem suas vantagens, mas também cria forte dependência de seus mercados.
Interessante a discussão nesse painel, da questão do papel do mercado no financiamento das pequenas/médias empresas e no outro extremo, nos grandes projetos de infra-estrutura. Será que o mercado terá todas as soluções que são necessárias para a provisão de recursos?
No que toca às discussões sobre o sistema de previdência social, foi muito discutido o sistema chileno que acaba por passar por uma reforma, criando mecanismos que permitam atender aos segmentos de menor renda e aqueles que não tem emprego formal. O sistema chileno, que foi modelo para muitos países pois transfere ao indivíduo a formação do seu pecúlio para aposentadoria, está fechando algumas brechas que vão lhe dar uma cobertura mais ampla. Entre elas está a preocupação em aumentar a concorrência entre os administradores.
Ficou evidente nessa discussão que a questão da previdência social tem que ser contemplada em mais de um canal para atender a diferentes segmentos de sociedades desiguais, aliás, como é o caso brasileiro, onde de qualquer forma esperamos uma previdência melhor administrada.
Grande ênfase foi dada nos debates à necessidade de combater a informalidade e aprimorar cada vez mais a governança corporativa para que os recursos institucionais desses importantes investidores tenham uma alocação racional.
Entre Peru e México fui e voltei aos Estados Unidos, primeiro participando, na Universidade Brown, de um seminário sobre a Iberoamérica. Tive oportunidade, em painel com o Presidente Felipe Gonzalez e Juan Luis Cebrian (Grupo Prisa), ressaltar a importância de nossa região pela grande reserva energética de que somos possuidores, como também nosso papel de relevância estratégica na questão ambiental pelo que representa a Amazônia. Discordei assim que a América Latina esteja perdendo importância relativa no contexto global, mesmo porque alguns aspectos políticos requerem maior e melhor acompanhamento.
Em Nova Iorque alguns contatos serviram para indicar que, infelizmente, a crise financeira com seus desdobramentos na economia real ainda não tiveram todos os seus aspectos avaliados e conseqüências determinadas. O período de ajustamento será muito mais longo, e é quase inevitável que maior regulação no setor financeiro virá pela frente. Vamos ver qual o preço que vamos pagar por aqui nesse processo de reajuste.

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