Archive for junho \27\UTC 2008

Até os Sauditas discutem o declínio do petróleo

junho 27, 2008

O declínio da produção, que fique bem claro. O debate sobre “peak oil” — a teoria, ou hipótese, de que a produção global de petróleo está próxima do pico de volume, ou que talvez já esteja em declínio — divide até os especialistas em geologia e produção ligados à Aramco, a empresa saudita de petróleo. De acordo com a excelente matéria do Wall Street Journal de sexta-feira, eles também têm dúvidas quanto à sua capacidade de elevar a produção para 15 milhões de barris diários, objetivo revelado ao mundo semana passada.

De volta ao começo (de 2007)

junho 26, 2008

O índice Dow Jones caiu mais de 350 pontos, ou 3%, hoje, quinta-feira. Com esse resultado, o índice da bolsa americana voltou ao patamar de setembro de 2006. De acordo com os relatos dos jornais — como o New York Times — a principal causa foi um relatório da Goldman Sachs dizendo que os bancos ainda têm muito prejuízo para reconhecer nos seus balanços, e mandando vender as ações do Citigroup. Outro analista da Goldman mandou vender as ações da General Motors, dizendo que a empresa vai precisar de mais capital para sobreviver. Rick Wagoner, o CEO da GM, foi forçado a afirmar que a empresa tem dinheiro suficiente para seguir em frente. Operadores de mercado viram sinais de pânico entre seus clientes.

Isso tudo quer dizer que, ao contrário do que muitos imaginaram logo depois da quebra do Bear Stearns, não é possível ainda afirmar com segurança que já passou o pior da crise financeira que começou no mercado subprime. Se os bancos continuarem perdendo rios de dinheiro trimestre após trimestre, será preciso mais capital — muito mais capital — e as fontes começam a secar.

Difícil equilíbrio na política monetária

junho 25, 2008

É o tema da coluna de Martin Wolf no Financial Times de hoje. Olhando para a economia global como uma
coisa só, ele conclui que os emergentes precisam elevar seus juros e remover subsídios dos combustíveis, permitindo que os consumidores ajustem seus hábitos à nova realidade. Apesar da crise de crédito, Wolf acredita que o Fed já foi além do necessário e em breve terá que elevar seus juros também.
No médio e longo prazo, o essencial é o desenvolvimento de novas fontes de energia. Precisamos nos livrar da dependência dos combustíveis fósseis, ele escreve.

Comentário Semanal

junho 25, 2008

George Soros é um investidor de grande sucesso, e um dos homens mais ricos do mundo. Quando ele diz que estamos vivendo a explosão de uma “super-bolha” com 25 anos de crescimento, como ele faz em seu último livro, ele consegue atrair a atenção de muita gente. Afinal, estamos vivendo condições de mercado bastante difíceis. Na segunda-feira, por exemplo, o banco de investimentos Goldman Sachs voltou atrás na sua avaliação do início de maio, quando recomendou ações de bancos a seus clientes. Dizendo que a avaliação do mês passado estava equivocada, admitiu que os problemas do sistema financeiro americano ainda não acabaram. O ciclo de deterioração de crédito ainda não chegou ao fim, os bancos precisarão de mais capital, e o fraco desempenho dos seus papéis tornará mais difícil levantar recursos.

O mercado de energia, por sua vez, continua turbulento. A última novidade neste segmento vital para a economia mundial foi o encontro de produtores e consumidores que aconteceu no último domingo na Arábia Saudita. Pressionados para aumentar suas vendas, os sauditas revelaram planos para aumentar a sua capacidade de produção nos próximos anos. No curto prazo, no entanto, a sua margem de manobra é muito limitada, e a queda de produção da Nigéria mais do que compensa qualquer aumento de produção anunciado pelos sauditas. Contudo, a história nos mostra que grandes aumentos do custo de energia tendem a provocar inflação e ajustes na economia global: com menor crescimento econômico e incentivos ao incremento de produção e substituição de matriz energética que podem gerar excesso de capacidade num futuro próximo. Depois dos choques do petróleo das décadas de setenta e oitenta, os preços do petróleo tiveram grandes quedas e passaram longos períodos em valores bem mais baixos que seus picos. Segue anexo gráfico com a série histórica do preço médio anual do barril de petróleo.

Isso não quer dizer, no entanto, que Soros esteja certo. O financista tem um longo histórico de previsões catastróficas que não se realizaram, e apesar de boa parte de sua tese parecer verossímil, o fato é que alertas como o dele têm um impacto, e investidores e governos reagem. As projeções, portanto, não se realizam. O risco real de uma grave crise financeira seguida de uma recessão profunda parece ter sido afastado, mas não sem custos para a sociedade. O mais latente é a inflação que está crescendo em todo o mundo.

Num cenário como este, torna-se cada vez mais difícil a condução da política monetária. Com a pressão dos preços dos alimentos e energia, já não há mais espaço para queda de juros na economia americana. Ao contrário, os discursos já falam em possíveis aumentos nas taxas de juros. Aqui no Brasil, estamos sujeitos às mesmas pressões que, mesmo parcialmente compensadas pela valorização do real, estão presentes nos índices de inflação recentemente publicados. O cenário que temos pela frente, como demonstram as projeções do relatório focus, é de alta de juros.

Com essas perspectivas a bolsa brasileira tem sofrido bastante este mês, com queda acumulada no período de -11%. Contudo, enquanto os preços das commodities se sustentarem em patamares elevados, algumas empresas brasileiras tenderão a se beneficiar desta condição. O problema é saber até quando isso durará.

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Cúpula do petróleo se encerra sem resultados práticos

junho 23, 2008

A julgar pelas notícias no New York Times, Wall Street Journal e Financial Times, o encontro de cúpula dos produtores e consumidores de petróleo, ocorrido na Arábia Saudita no domingo, terminou sem nenhum resultado prático. Alguns comentaristas acreditam que o mero surgimento de um consenso de que os preços do petróleo estão muito altos já é grande avanço, mas ficou claro também que não há acordo em torno das causas dos preços altos, com os sauditas jogando a culpa nos especuladores dos mercados de commodities.

Os sauditas tradicionalmente cumprem o papel de reguladores de oferta no mercado internacional, mantendo sempre alguma capacidade ociosa para suprir picos de demanda, buscando assim evitar movimentos violentos de preço. Eles querem, com isso, impedir o surgimento de alternativas ao ouro negro. Mas a tarefa está se tornando mais difícil, e os sauditas não querem correr o risco de ficar sem margem de manobra. Por isso mesmo anunciaram um programa de investimento para elevar sua capacidade de produção para até 15 milhões de barris diários, contra um volume atual de aproximadamente 9,7 milhões. Mas não é certo que esse objetivo será atingido, e a redução da produção em países como a Nigéria, México e Noruega significa que o mercado continuará bastante apertado. Segundo o FT, traders já falam em US$ 150 por barril no verão do hemisfério norte.

A montanha russa dos preços do petróleo

junho 20, 2008

Ontem, quinta-feira, a notícia era que o governo da China deve reduzir os subsídios aos combustíveis, e o preço do barril de petróleo caiu quase cinco dólares. Hoje, sexta-feira, o preço volta a subir – por causa da redução dos subsídios chineses, segundo operadores ouvidos pelo Financial Times.

A redução dos subsídios na China deve levar a uma redução do consumo ou, pelo menos, a uma redução da taxa de crescimento do consumo de combustíveis naquele país. No curto prazo, no entanto, parece haver uma expectativa de que a medida leva ao aumento dos estoques de refinadores, e portanto a um aumento da demanda.

Mas a grande expectativa hoje no mercado de petróleo é quanto à reunião da OPEP no fim-de-semana. O presidente da organização não parece simpatizar com aqueles que pedem mais produção. Já comentamos aqui no blog que a posição dos produtores tem lógica. Os altos preços estão levando à queda do consumo, e aumentar produção agora pode levar a um colapso de preços no médio prazo. Estão todos de olho no discurso e nas ações da Arábia Saudita.

Poupança é coisa de pobre?

junho 17, 2008

Escrevemos recentemente sobre as mudanças de hábitos dos consumidores americanos provocadas pela alta do preço dos combustíveis: caem as vendas de veículos pesados, cresce a procura pelos híbridos, os motoristas aprendem a dirigir economicamente, e as empresas de aviação fazem um esforço para extrair a última gota de economia de combustível nos seus vôos.

E por aqui, na América Latina? Quem responde a pergunta é o Financial Times, e a resposta é até certo ponto surpreendente: graças aos subsídios praticados na maioria dos países latinos, a gasolina e o diesel ainda são muito baratos, tanto em países exportadores como em países importadores de petróleo. Não há incentivo, portanto, para diminuir o consumo e os congestionamentos de trânsito monstruosos são uma constante no continente.

O Brasil até que não está tão mal na comparação. A estabilidade dos preços da gasolina e do diesel no mercado interno deve mais à valorização do real do que às confusões com a CIDE. O drama, tanto aqui quanto nos vizinhos, é que o medo da inflação limita as opções dos governos na hora de fazer o ajuste necessário. E enquanto o ajuste não acontece vamos continuar gastando.

Comentário Semanal

junho 17, 2008

A Abertura de capital da OGX, empresa criada por Eike Batista, foi notícia até na Austrália. A forte personalidade do empresário e os detalhes muito públicos da sua vida pessoal explicam parte do interesse. Mas o principal fator foi, sem dúvida, o valor atribuído por investidores à empresa.

Com menos de um ano de existência e sem jamais ter furado um poço, a OGX terminou seu primeiro dia de pregão valendo mais de RS$ 38 bilhões. Essa valorização sugere que os investidores acreditam não só no histórico de sucesso das pessoas envolvidas no processo, mas também na probabilidade de encontrar petróleo em áreas já bastante conhecidas no litoral brasileiro.

O alto valor é também um indicador do interesse estrangeiro por investimentos no setor de energia no Brasil. Muitos analistas acreditam que a nossa plataforma continental é uma das últimas regiões do mundo com potencial petrolífero ainda não aproveitado, e buscam alternativas à Petrobras, vista por muitos como empresa de governança complicada. As ações da OGX são também uma aposta na alta continuada dos preços do petróleo.

As atitudes recentes da Arábia Saudita, no entanto, indicam que essa alta talvez não seja tão certa assim. Apesar da pressão dos paises consumidores, os sauditas relutam em elevar a sua produção. Eles parecem acreditar que a alta recente não corresponde aos fundamentos do mercado, e temem uma queda forte da demanda nos próximos anos. Os altos preços devem produzir mudanças de hábitos dos consumidores e busca por fontes alternativas de energia, como aconteceu após os choques do petróleo dos anos 70 e 80. Seja na costa do Brasil, seja nos depósitos de areia betuminosa no Canadá, os altos preços alimentam um boom de investimentos que, mais cedo ou mais tarde, elevará a produção de petróleo e de seus equivalentes.

Aqui no Brasil, apesar de a Petrobras não repassar para os preços finais todo o aumento recente do petróleo, nossos índices de inflação têm sido bastante pressionados também pela alta no preço dos alimentos, causando impacto nos mercados.

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Adaptação

junho 12, 2008

Apesar da alta volatilidade nos últimos dias, a tendência dos últimos meses é clara: o petróleo subiu muito de um ano para cá, como pode ser visto aqui. Não sabemos se a tendência se manterá, mas a elevação dos preços dos combustíveis derivados do petróleo já está levando a mudanças significativas de comportamento do consumidor — naqueles países, é claro, onde o preço dos derivados não é subsidiado pelo governo e flutua junto com o preço do petróleo.

Estamos fazendo referência aos Estados Unidos, onde a alta do preço da gasolina causou uma queda dramática na venda de carros de luxo (Bloomberg); onde a procura por híbridos como o Toyota Prius dispara, e as concessionárias não têm mais para entregar (David Pogue, New York Times); onde a GM não sabe mais o que fazer com o Hummer (New York Times); onde os motoristas procuram aprender como dirigir de maneira econômica (Christian Science Monitor); e onde as empresas de aviação estão reduzindo suas frotas e procurando identificar cada possibilidade de economizar uma gota que seja de combustível (Micheline Maynard, que escreve sobre aviação comercial para o New York Times).

Comentário Semanal

junho 10, 2008

O retorno da volatilidade nos mercados internacionais parece confirmar a percepção de que a calmaria após o colapso do banco Bear Stearns foi apenas um alivio temporário. O nervosismo no mercado americano ficou bastante claro na sexta-feira. A divulgação da taxa de desemprego acima do esperado e a nova disparada do preço do petróleo levaram a um movimento de venda de ações que resultou em queda de 395 pontos no índice Dow Jones.

O movimento no preço do petróleo criou um dilema para os produtores. De acordo com matéria publicada na segunda-feira pelo Wall Street Journal, os países membros da OPEP não acreditam que essa alta do preço tenha base nos movimentos de oferta e de demanda, e resistem à idéia de aumentar a produção de óleo. Eles sabem que a alta dramática dos últimos meses deve levar a uma redução do consumo nos países desenvolvidos, e especialmente nos Estados Unidos, que parecem estar em recessão.  Aumentar produção agora pode levar a um colapso das cotações em alguns meses, quando a demanda se ajustar aos níveis atuais de preços.

Mas por enquanto, o efeito visto é o seguinte:  a alta do petróleo alimenta a inflação, tirando espaço de manobra dos bancos centrais, que já sinalizam altas nos juros. Aqui no Brasil não é diferente. Em sua última reunião o Copom aumentou a taxa Selic em 0,50 pp, para 12,25% a.a. Mas ainda há expectativas de novos aumentos. Segundo o relatório Focus, publicado pelo BC, a projeção do mercado para a taxa Selic no final do ano é de 14% a.a.

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