Archive for julho \29\UTC 2008

Comentário semanal

julho 29, 2008

A inflação está de volta, e a atuação dos bancos centrais também volta a ser assunto de discussão. Nos Estados Unidos o economista Frederic Mishkin, freqüente colaborador do presidente do Federal Reserve Ben Bernanke quando os dois eram apenas economistas acadêmicos, está deixando o cargo de “governor” (diretor) do Fed. Ele resolveu aproveitar a ocasião para revelar o que pensa sobre política monetária (reportado pelo Bloomberg e pelo Wall St Journal).

Mishkin acredita que os EUA precisam de um regime de metas de inflação, ao invés do sistema atual onde o Fed tem o duplo mandato de buscar ao mesmo tempo estabilidade de preços e pleno emprego. Ele acredita que uma âncora nominal – ou seja, uma meta específica de inflação – pode ajudar a promover a estabilidade financeira, firmando as expectativas inflacionárias dos agentes econômicos.

O economista defende ainda que a meta de inflação seja expressa em termos do que ele chama de “headline inflation”, ou seja, do índice cheio, e não de índices expurgados de custos de energia ou de alimentos. Esses itens são naturalmente voláteis, mas suas oscilações não podem ser ignoradas já que afetam o bolso do consumidor.

Por aqui já temos o sistema de meta de inflação, que usa como referência o índice IPCA publicado pelo IBGE, mas considera também uma banda de + ou – 2pp, como margem de erro. E por falar em inflação, pela décima primeira semana seguida sobe a projeção do IPCA para o ano de 2008 publicada pelo Relatório Focus. Foi de olho na pressão dos preços que o Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil elevou a taxa Selic em três quartos de ponto na semana passada, para 13% a.a.. Essa postura agressiva parece indicar que a disposição do Copom de acomodar inflação “importada” tem limites.

Com esse cenário ruim aliado à preocupação com o setor financeiro americano, as bolsas têm sofrido bastante este mês. Hoje a bolsa americana caiu, com o Dow Jones fechando com queda   -2,11%, e o S&P com baixa de -1,86%. A bolsa brasileira sofreu menos, fechando o dia com queda de -0,57%. Continuamos monitorando os movimentos do mercado buscando as oportunidades atrativas de compra, que costumam aparecer em períodos de turbulência.

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O Brasil e a rodada de Doha

julho 29, 2008

Duas análises de jornalistas que vêm acompanhando o processo de negociações: Assis Moreira, no Valor, e Clóvis Rossi, na Folha. Como relatada à Assis Moreira por funcionários do Itamaraty, a adesão do Brasil à proposta de consenso foi um gesto puramente pragmático, decorrente de uma avaliação de que o processo  já tinha atingido o limite, e que novas concessões aos interesses brasileiros custariam muito caro na barganha mercantilista da OMC.

Segundo a versão narrada por Assis Moreira, não houve uma “traição” ao G-20. O que houve foi uma radicalização da posição da Índia, que o Brasil não quis acompanhar. E a China não estaria disposta a fazer mais concessões agora, pois seus dirigentes sentem que já abriram demais na adesão à OMC sete anos atrás.

O curioso é que dentro da lógica mercantilista da OMC e especialmente no contexto da rodada de Doha resistir à abertura comercial virou sinônimo de liderança, como se lê na matéria de Clóvis Rossi. É uma inversão total dos objetivos dessas negociações. Para quem quer posar de defensor dos fracos e oprimidos, muito bem. Mas se a idéia é fechar um acordo a atitude tem que ser outra.

Update: as agências de notícias acabam de anunciar o colapso das negociações. A bomba ficou no colo de Índia, China e EUA. A manobra de Celso Amorim teve o mérito de tirar o Brasil da lista dos “bad guys.”

O FMI e o estigma das finanças offshore

julho 28, 2008

O FMI abandonou a distinção entre centros financeiros “onshore” e “offshore”, segundo o Financial Times. Os economistas da instituição admitiram que essa distinção não faz muito sentido em um mundo cada vez mais globalizado financeiramente, e que do ponto de vista do combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo as jurisidições domésticas e offshore são comparáveis.

O fim de uma era

julho 25, 2008

A constatação é do Wall Street Journal: diante da crise no mercado de crédito imobiliário, o governo americano vai deixando de lado a fé na desregulamentação. A rigor não há novidade nenhuma nisso – o pêndulo já foi e voltou várias vezes ao longo da história americana. Mas pode ser o fim da revolução que começou com Ronald Reagan nos anos 70, especialmente se Barack Obama for eleito presidente.

Incentivos e comportamentos

julho 22, 2008

Nouriel Roubini, apocalíptico como sempre, escreve: o modo de vida do americano típico, morador de uma “McMansion” no subúrbio com três SUVs na porta, está definitivamente condenado. Segundo ele, os subsídios à indústria habitacional levaram a um excesso de investimento no setor, investimento que não trouxe consigo nenhum ganho de produtividade. Com o aumento dos preços dos derivados do petróleo, os americanos estão dirigindo menos e os valores de mercado dos seus veículos beberrões e de suas casa com altos custos de aquecimento estão despencando. com isso os comportamentos mudam, e rápido.

E no Brasil? No primeiro semestre de 2008 o consumo de derivados do petróleo cresceu 8% com relação ao mesmo período do ano passado. A nossa produção de petróleo e derivados não cresceu quase nada, e a balança comercial de petróleo e derivados atingiu um déficit de US$ 4,7 bilhões nesse mesmo período. A fonte desses dados é o blog de Adriano Pires.

Comentário semanal

julho 22, 2008

As oscilações dos últimos dias mostram que o preço do petróleo continua sendo uma influência decisiva sobre os mercados financeiros mundiais. Na semana passada tivemos uma forte reversão da tendência de alta dos últimos meses, e seu preço, que chegou próximo dos US$ 150 por barril, terminou a semana abaixo dos US$ 130. Hoje, segunda-feira, o preço do petróleo voltou a subir, prejudicando o desempenho das ações no mercado americano.

A saúde dos bancos americanos é outro tema que continua demonstrando enorme potencial de influência sobre os mercados. O semanário Barron’s sugere que o pior já passou para muitas empresas financeiras, pois os últimos resultados de bancos como o JPMorgan Chase ou o Wells Fargo indicam que essas instituições têm condições de absorver perdas nas suas carteiras sem precisar de novas grandes chamadas de capital. O entusiasmo do Barron’s, no entanto, tem claros limites. O colunista Andrew Bary vê oportunidades em ações de bancos regionais, hoje muito baratas em comparação com o seu valor patrimonial, mas recomenda manter distância de papéis de instituições expostas ao mercado de hipotecas, como Fannie Mae e Freddie Mac.

O destino das duas instituições refinanciadoras de hipotecas ainda é assunto de muita controvérsia, apesar do pacote de medidas anunciado pelo Tesouro e pelo Fed no fim de semana de 13 de julho. Críticos como o economista Nouriel Roubini sugerem que teria sido melhor nacionalizar as duas instituições, já que a solução adotada – linhas de crédito do Fed e, eventualmente, do Tesouro – não garante sua viabilidade como peças importantes do sistema americano de crédito imobiliário e cria risco moral.

E o mercado brasileiro continua firmemente amarrado às oscilações das commodities, devido ao peso de empresas como Petrobras e Vale em nossa bolsa de valores, freqüentemente na contramão do mercado americano. Hoje, segunda-feira, o índice Bovespa fechou em alta de 1,31%, enquanto o índice Dow Jones caiu -0,25%.

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Uma beleza o prejuízo do Citigroup

julho 18, 2008

O mercado de ações americanos dá sinais de recuperação hoje, após a divulgação do resultado trimestral do Citigroup. O prejuízo ficou abaixo do esperado, surpreendendo aqueles que esperavam um resultado parecido ao de outras instituições financeiras. Os analistas se perguntam porque o Citi não reduziu o seu dividendo.

Una gran confusión

julho 18, 2008

Numa grande confusão é onde o editor do Clarín vê hoje a economia argentina. A incerteza provocada pelo impasse político parece estar afetando as decisões de investimento e consumo no país vizinho, e a meta de crescimento do governo, de 7% em 2008, parece a cada dia mais ameaçada. Dentro desse contexto, ele chama atenção para as taxas de juros ainda altíssimas, conseqüência da falta de confiança. A derrota política sofrida pelo governo no Senado, somada à reestatização da Aerolineas Argentinas, alimentam a desconfiança de que a Argentina não tem jeito.

Há outros riscos. Inflação reprimida e um enorme racha político. Fuga acelerada de capitais. Será que os Kirchner conseguem ainda aprender uma outra maneira de governar?

Vilões do mercado

julho 17, 2008

O sistema financeiro americano está vivendo dias complicados, e a tentação de buscar um bode expiatório é grande. Lá nos Estados Unidos os vilões da vez são os “short sellers”, ou seja, investidores que vendem ações que não possuem na expectativa de comprá-las mais a frente por um preço inferior ao que pagaram. A SEC publicou ontem uma ordem de emergência que proíbe a venda descoberta de ações de 17 bancos, da Fannie Mae e do Freddie Mac.

A ordem não restringe a venda, desde que o investidor alugue o título emprestado para vendê-lo. Ela proíbe o que os americanos chamam de “naked short selling”, ou seja, a venda totalmente a descoberto, uma prática aparentemente rara. Em outras palavras, quem quiser vender as ações dos bancos na lista da SEC precisará localizar os títulos antes de realizar a venda, e não depois. O assunto é controverso, e a aplicação da regra vai dar trabalho (Economist, Time, WSJ MarketBeat).

Comentário semanal

julho 15, 2008

A crise financeira que começou no mercado americano de hipotecas “subprime”, i.e., de baixa qualidade, parece estar longe ainda de ter se esgotado. As suas mais recentes vitimas foram as agências de securitização de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac, empresas privadas que sempre tiveram baixos custos de captação graças à garantia implícita do tesouro americano.

Essa garantia implícita permite às duas empresas operar com baixo custo de captação, comprando as hipotecas emitidas pelos bancos americanos e emitindo títulos lastreados nelas. Seu papel nesse mercado é fundamental. Fannie Mae e Freddie Mac juntas possuem ou garantem mais de US$ 5 trilhões em hipotecas, quase metade do total do mercado americano.

A quebra de uma dessas instituições teria, portanto, enorme impacto sobre o mercado de financiamento imobiliário americano. O que explica a urgência da operação de salvamento montada pelo Tesouro e Fed durante o último fim-de-semana, ainda que essa operação tenha sido desenhada para manter Fannie e Freddie sob controle privado, com apoio financeiro agora explícito do governo.

Ainda é cedo, no entanto, para afirmar que a intervenção atingiu seus objetivos. Ela parece ter sido suficiente para acalmar os investidores que compraram títulos de dívida das duas instituições, mas o comportamento do mercado de ações hoje, segunda-feira, com o índice Dow Jones abrindo em forte alta mas fechando em queda de -0,4%, sugere que os investidores não estão convencidos de que o pior já passou.

A queda forte das ações de bancos, em particular (o índice S&P do setor caiu hoje mais de -6%) é um indicador daquilo que os participantes do mercado acreditam que vem por aí. Não necessariamente um meltdown financeiro, mas dificuldades e eventuais intervenções resultando na diluição dos atuais acionistas.

Hoje, apesar do mercado ruim de Nova York, a Bovespa fechou com alta de 0,95%. Contudo, no mês, a bolsa paulista acumula queda de -6,61%.

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