Archive for setembro \30\UTC 2008

Recuperação

setembro 30, 2008

Mercados mais tranqüilos hoje, aparentemente embalados por esperanças de um pacote de ajuda aos bancos antes do final da semana, e uma possível expansão do sistema de seguro de depósito bancário. Cresce também a expectativa de um corte de juros pelo Fed. Mas depois do desastre político de segunda-feira é difícil acreditar em redenção para esse Congresso e para esse plano. O caos nos mercados de crédito talvez fosse um incentivo para a ação, se não fosse tão difícil para os leigos interpretar suas idas e vindas. Ou será que falta meter medo nesses caras?

Comentário semanal

setembro 30, 2008

A segunda-feira foi um dia histórico para os mercados e para a economia mundial. A rejeição pela câmara dos representantes do pacote de ajuda para o sistema financeiro provocou fortes quedas nos mercados. O índice Dow Jones caiu -6,98%. O S&P 500, mais representativo do mercado e das carteiras dos investidores médios, fechou em queda de -8,81%, seu pior desempenho desde outubro de 1987. O índice Bovespa chegou a atingir -10% de queda durante o pregão, levando à suspensão automática dos negócios por meia hora. Ainda assim, a queda no final do dia foi de -9,36%.

Esses são apenas alguns dos indicadores mais visíveis do grau de “stress” nos mercados. Outros sinais de tensão estão presentes nos mercados de crédito e de câmbio, e na atuação das agências do governo americano. Somente no dia de segunda tivemos um acréscimo de 330 bilhões no volume de dólares à disposição dos bancos centrais da Europa e Japão. Os bancos centrais europeus tiveram um dia cheio, montando ajudas de emergência para instituições como Hypo Real Estate na Alemanha, Fortis no Benelux e Bradford & Bingley na Inglaterra. Tivemos também mais um dia de stress no mercado interbancário americano, que continua essencialmente paralisado apesar das enormes injeções de recursos pelo Fed.

Por outro lado, é difícil encontrar algum economista que tenha defendido o plano de resgate que o governo Bush mandou para o Congresso. A proposta de Paulson e Bernanke foi muito criticada por não atacar diretamente o problema da falta de capital do sistema bancário, pelo aspecto de risco moral, pela falta de punições para os responsáveis, e pelo excesso de poder que ela colocava nas mãos do secretário do Tesouro. Mas era a única alternativa sobre a mesa, e ainda não sabemos quais serão os próximos passos. No momento em que escrevemos, as notícias dizem que Paulson voltará ao trabalho com o Congresso, mas é difícil identificar as bases de um novo acordo.

Enquanto esse novo plano não sair, o Fed deve voltar aos instrumentos que tem usado nos últimos meses, como as linhas especiais de crédito, além do socorro caso a caso, como nos casos do AIG, Washington Mutual e Wachovia. Uma redução dos juros também é possível. Mas se você escutar alguém dizendo que sabe para onde caminha a solução, pode ter certeza de que não é verdade.

A não aprovação do pacote pegou a maior parte dos agentes de surpresa. Junte-se a isso a falta de apoio da população americana às medidas anunciadas e uma eleição para o congresso e Casa Branca no início de novembro. Não é o fim do mundo, mas as incertezas são imensas. Uma das incertezas é quanto à disposição dos investidores estrangeiros de continuar colocando dinheiro nos EUA, onde uma crise política veio se somar à crise financeira. O dólar, no entanto, se segurou no dia de hoje, em parte por causa dos problemas vividos pelas outras economias de moeda forte. A confusão é tamanha que, segundo notícia da Bloomberg, os mercados temem intervenção dos bancos centrais para reduzir a volatilidade das taxas de câmbio.

Quanto ao Brasil, podemos dizer que nosso sistema bancário tem uma boa posição hoje, com a maior parte dos bancos bem capitalizada. Nosso sistema financeiro também evoluiu desde a última crise bancária, que levou à criação do PROER. Um dos grandes avanços foi a criação do Fundo Garantidor de Crédito, que garante depósitos em instituições financeiras de até R$ 60 mil por cliente, por instituição. Esse tipo de garantia tem um efeito muito positivo, pois assegurando um valor mínimo por depositante, tende a evitar a corrida aos bancos em tempos de crise. Muitos analistas acreditam que ainda não houve uma corrida generalizada dos correntistas americanos aos bancos de lá graças a esse tipo de seguro, que nos EUA garante até US$ 100 mil por cliente por instituição.

Na semana passada o Banco Central brasileiro aliviou as regras para o recolhimento do compulsório para facilitar um pouco a vida dos bancos de médio porte. Esses bancos vinham captando bastante dinheiro lá fora para emprestar aqui dentro. Além do aperto na liquidez mundial e o congelamento do mercado de crédito, contribuíram para a necessidade de liquidez os prejuízos incorridos por empresas como Sadia e Aracruz em suas operações de hedge cambial.

Por enquanto temos visto apenas problemas bastante localizados. Contudo, como regra geral, em um momento como esse é bom ter aplicações em instituições sólidas. No caso dos fundos distribuídos pela Benchmark A.A.I. podemos dizer o seguinte: os fundos administrados pela BNY Mellon, como a família de fundos da Arx e o Upside, têm sua custódia no Banco Bradesco; o Unibanco está entre os maiores bancos brasileiros; o Credit Suisse é um dos bancos mais capitalizados entre os grandes do mundo; e o Calyon é um dos maiores bancos franceses. Além disso, procuramos sempre fundos que usem pouca alavancagem, o que evita riscos maiores em cenários de muita volatilidade como agora.

Quanto aos preços dos ativos, isso é uma outra questão. Temos visto movimentos fortes durante o dia, e de um dia para o outro. E às vezes até perdemos a noção de valor. Só para se ter uma idéia, mesmo com a forte queda de segunda, o Ibovespa fechou a 46.028 pontos, acima do fechamento do dia 17 de setembro, há pouco mais de uma semana, quando o índice da bolsa paulista encerrou o pregão a 45.908 pontos. As incertezas são muitas, e é por isso que os preços têm oscilado tanto, em tão curto espaço de tempo. Enquanto elas continuarem, não podemos esperar um cenário diferente deste. A vantagem é que hoje temos ativos com preços bastante razoáveis, o que tende, de certa forma, a limitar o espaço para quedas.

Para superar um momento como este, o melhor a fazer é ter uma boa alocação de carteira e tentar se movimentar o menos possível, pois dada a grande variação dos preços nos mercados, essas movimentações poderão ter custos muito altos. Estando investido em fundos que tenham bons ativos, ou nos próprios ativos diretamente, as cotas ou preços podem cair e subir bastante de um dia para o outro, mas olhando para um horizonte mais longo, esses ativos tenderão a atingir preços mais compatíveis com seus fundamentos.

Veja aqui o acompanhamento de fundos distribuídos pela Benchmark.

Tumulto

setembro 24, 2008

A grande notícia de hoje, quarta-feira, é a aquisição de ações do Goldman Sachs por Warren Buffett, lenda viva do mercado. Buffett parece ter feito um grande negócio, garantindo para si mesmo (e para os acionistas da Berkshire Hathaway) um bom retorno. O investimento é também um voto de confiança na instituição, no sistema financeiro, e no pacotão do secretário Paulson.

Paulson e Bernanke estão novamente no Morro do Capitólio hoje, dessa vez falando para os deputados. Bush vai falar em cadeia nacional de TV — um sinal, para alguns, de que a Casa Branca está perdendo a batalha de comunicação em torno do plano de salvamento.

Finalmente, os sinais que estão vindo do mercado interbancário não são nada bons (Bloomberg, Across the Curve). Especialmente quando se considera a quantidade de dinheiro que o Fed já usou para manter os mercados em funcionamento.

O que aconteceu nos futuros de petróleo ontem?

setembro 23, 2008

O pulo no preço dos contratos futuros de petróleo ontem foi motivo de muita discussão: o contrato de outubro, que expirava ontem, subiu 25 dólares. Os contratos mais longos também subiram, mas não na mesma proporção, indicando que fatores técnicos estiveram em jogo. Jim Hamilton comenta hoje no Econbrowser: o que parece ter acontecido foi um “short squeeze”: os vendidos tinham que liquidar suas posições no mercado, e tiveram dificuldades para achar a outra ponta. De qualquer maneira, os outro vencimentos também subiram, indicando, na opinião de Hamilton, que o mercado de petróleo voltou a atrair investidores que vêem nas commodities uma reserva de valor em tempos inflacionários.

Dodd-Shelby-Paulson-Bernanke

setembro 23, 2008

Hoje é dia de Paulson e Bernanke na comissão de assuntos bancários do senado. Ao vivo em sites como Bloomberg e CNBC. Live blog no site da revista Time.

Comentário semanal

setembro 23, 2008

Os mercados financeiros mundiais tiveram na semana que passou um dos períodos mais conturbados dos últimos anos. As ações tomadas ao longo dos últimos dias terão conseqüências profundas, e ainda parcialmente imprevisíveis, para o sistema financeiro e para a economia mundial.

A semana passada começou com a quebra do banco de investimentos americano Lehman Brothers. O Lehman era o menor, e visto como o mais vulnerável dos grandes bancos de investimentos independentes que ainda restavam em Wall Street. Sua quebra, no entanto, acelerou a desconfiança de participantes dos mercados financeiros, e precipitou a busca pelas próximas peças do dominó. Os resultados foram a quebra do conglomerado AIG, a fusão de emergência do Merrill Lynch com o Bank of America, e a queda dramática das ações dos dois bancos de investimentos que haviam sobrado, o Morgan Stanley e o Goldman Sachs. Aliás, hoje não existe mais nenhum banco de investimento independente de grande porte americano, pois esses dois últimos anunciaram no domingo que entraram com processo junto às autoridades para se tornarem bancos comerciais.

Mas a reação dos mercados foi muito além disso. A retração desencadeada pela quebra do Lehman provocou pânico. Para tentar conter esse movimento, o colapso da AIG foi evitado com um empréstimo às pressas de US$ 85 bilhões do Tesouro americano. Mas isso não foi suficiente. Os mercados só mostraram uma reação positiva no final da semana, quando vazou a intenção do secretário do Tesouro Henry Paulson de propor para o Congresso um plano de salvamento de US$ 700 bilhões para limpar os balanços das instituições financeiras americanas.

O plano apresentado por Paulson, no entanto, é apenas uma proposta, e a negociação com o Congresso promete momentos de suspense. Dois aspectos do plano, em particular, estão recebendo críticas de economistas e analistas financeiros. Um deles é o excesso de poder conferido ao secretário do Tesouro, que ganharia imunidade jurídica total. O outro aspecto preocupante é que o plano, como apresentado, permitiria aos bancos passar para o Tesouro os seus títulos podres, mas não faria nada para recapitalizar o sistema. Muitos observadores defendem que o Tesouro participe dessa recapitalização injetando recursos nos bancos por meio de algum instrumento acionário, de maneira a poder participar também dos eventuais ganhos na medida em que a normalidade volte aos mercados, e não somente dos custos.

As últimas notícias dão conta de que um acordo está próximo a ser fechado para o pacote, com o Tesouro americano fazendo concessões em alguns pontos cruciais. Executivo e líderes do legislativo parecem concordar em incluir no pacote a criação de alguma estrutura de supervisão sobre o programa, assim como medidas para ajudar proprietários ameaçados de perder seus imóveis. Mas ainda não parece haver consenso em torno da aquisição pelo Tesouro de participação no capital das instituições com problemas nos seus balanços.

Teremos dias de grande volatilidade pela frente. Hoje, segunda-feira, tivemos queda de -3,8% no índice S&P 500 e de -3,3% no Dow Jones. O dólar e os títulos longos do Tesouro americano caíram, enquanto commodities como o ouro e o petróleo subiram. Essas reações indicam preocupação com os custos do pacote, que, na percepção de investidores, será financiado por inflação.

Contudo, a alta recorde do preço do contrato futuro do petróleo hoje, de +16%, parece ter tido um componente técnico bastante forte. Devido ao vencimento do contrato, parece que houve um “squeeze” no mercado, com muita cobertura de posições vendidas a descoberto. Outro sinal neste sentido foi que apesar da grande alta do petróleo, a maior parte das ações de empresas produtoras apresentaram queda no pregão de hoje. Nos mercados da Ásia, onde começa a movimentação de terça-feira, o preço do petróleo está caindo e o dólar está se fortalecendo frente à maior parte das moedas. Isso dá uma boa idéia de como andam as coisas nos mercados financeiros.

Aqui no Brasil, apesar de nossa boa situação macroeconômica, sentimos os efeitos dessa crise, com o dólar disparando e a bolsa caindo. A Bovespa chegou a apresentar queda diária maior que -7% e alta de mais de +9%. Se olharmos a performance da semana, veremos que o índice da bolsa paulista subiu +1,27% no período. Contudo, a diferença entre a máxima e a mínima chegou a mais de 17%.

Veja aqui o acompanhamento de fundos distribuídos pela Benchmark.

Na estratosfera

setembro 19, 2008

Os mercados abriram eufóricos hoje, graças ao anúncio de várias medidas para conter a crise financeira. A principal delas é a criação de uma entidade para comprar a papelada podre que continua envenenando o sistema financeiro. A proibição de vendas a descoberto de ações de empresas do setor financeiro parece ter acelerado a alta.

Paulson, Bernanke e companhia prometem muito trabalho durante o fim de semana para dar uma forma mais concreta às intenções que foram apresentadas até aqui. Há um volume enorme de material na blogosfera sobre o potencial, os antecendentes, os riscos e vantagens das estruturas em discussão. Alguns links:

Nouriel Roubini – quer mais apoio para os proprietários de imóveis.

Clive Crook discute a história da Resolution Trust Corporation, criada depois da crise das instituições de poupança e empréstimo nos anos 80.

Há uma série de dúvidas sobre como a nova entidade operará. Mark Thoma é um bom ponto de entrada para essa discussão.

John Jensen discute o custo da operação de salvamento, que certamente será astronômico.

Para Brad Setser, boa parte do dinheiro virá de fora. Dos bancos centrais que continuam comprando dólares.

Steve Randy Waldman argumenta que a crise financeira pode ser sintoma de problemas mais complicados da economia americana.

Retrocesso

setembro 18, 2008

É claro que em momentos de crise o que conta é a sobrevivência, mas ainda assim é incrível ler que o governo argentino quer voltar a tomar dinheiro emprestado do Banco de la Nación para fechar o orçamento de 2009.

De volta ao começo

setembro 18, 2008

Worst crisis since 30s, with no end in sight” – é uma das manchetes do WSJ hoje.

Paul Krugman escreve no seu blog, a respeito do estado atual dos mercados de crédito, que profissionalmente está fascinado, mas como cidadão está apavorado.

Apesar de uma gigantesca injeção de liquidez coordenada pelos bancos centrais, os mercados permanecem extremamente nervosos. Os problemas começam a afetar o mercado de commercial paper, com impactos potenciais preocupantes sobre a economia real. E os asset managers começam a levar porrada, em função dos problemas com money market funds, mais ou menos equivalentes aos nossos fundos de DI. Ugh.

O limite da eficácia das soluções ad-hoc

setembro 17, 2008

O Tesouro americano conseguiu improvisar ontem uma saída para evitar a quebra da seguradora AIG, que teria conseqüências imprevisíveis para os mercados financeiros globais. A reação dos mercados, no entanto, é de extremo nervosismo. Não é só a queda dos preços das ações, por mais dramático que seja o declínio nos papéis dos dois broker/dealers independentes que sobraram. A nova aversão ao risco está paralisando o mercado interbancário, e a fuga para a (relativa) segurança dos títulos do tesouro americano está empurrando os yields para perto de zero. Paul Krugman está assustado, e não é para menos. Tem gente muito qualificada dizendo que a solução passa pela criação de um órgão do governo para retirar do mercado a papelada sem valor.