Comentário semanal

O sistema financeiro americano passou por uma reestruturação dramática no último fim de semana. Dois dos quatro bancos de investimento que restavam em Wall Street desapareceram. O Lehman Brothers entrou em processo de liquidação e o Merrill Lynch está em processo de venda para o conglomerado Bank of America. Com essas notícias os índices das bolsas americanas sofreram grandes perdas, com o Dow Jones caindo -4,4% e o S&P500 -4,7% na segunda-feira.

Os bancos de investimento são peças centrais naquilo que se convencionou chamar de “shadow banking system”. Esse sistema bancário das sombras, que em grande parte substituiu os bancos comerciais na intermediação financeira, se baseia no uso de instrumentos estruturados, derivativos e outras inovações para controlar e dispersar os riscos da sua atividade.

A crise que começou no segmento subprime do mercado de financiamento imobiliário americano está mostrando, no entanto, os limites desse sistema. Bancos de investimento são operações alavancadas, que tomam empréstimos de curto prazo para montar posições de médio e longo prazo. Essa estratégia depende da confiança dos investidores, e o caso do Lehman mostrou o que acontece quando essa confiança se esgota.

As ramificações da liquidação do Lehman Brothers ainda são incertas. A aquisição do Merrill Lynch pelo Bank of America teve um papel importantíssimo, removendo um foco de preocupação do mercado. Domingo à tarde, antes de seu anúncio, a Merrill Lynch já era vista como a bola da vez depois do Lehman. A atuação do Fed, facilitando mais uma vez o acesso às suas linhas de crédito, também ajudou a reduzir um pouco o impacto negativo da notícia sobre o Lehman.

Um ponto a ser ressaltado é a mudança ou pelo menos a percepção de mudança na ação das autoridades americanas. Nas últimas crises, ainda com o Fed sob a batuta de Alan Greenspan, o mercado foi solidificando a idéia de que sempre haveria salvamento para as empresas financeiras que se metessem em enrascadas. Por trás disso havia a idéia de que seria mais barato para as autoridades e para o tesouro salvar uma instituição e alguns investidores a deixá-la quebrar e ver todo o sistema financeiro entrar em colapso. O salvamento do Bear Stearns foi mais um exemplo que fortaleceu esta percepção. Houve injeção de dinheiro público e os acionistas do banco com problemas de liquidez ainda receberam alguma coisa em sua venda para o JP Morgan. Contudo já no caso da federalização das agências Fannie Mae e Freddie Mac, o dinheiro público foi usado para salvar o sistema, mas os acionistas foram diluídos e perderam muito dinheiro. No caso do Lehman, o secretário do tesouro Paulson disse não aos pedidos de uma garantia do Fed e o banco acabou quebrando. Junto com ele foi embora também a percepção do mercado de que sempre haveria um salvamento para esse tipo de situação. O que faz com que os preços dos ativos e seus riscos sejam reavaliados frente a esta nova realidade.

Os problemas no sistema financeiro americano não acabam no desastre do Lehman. As atenções se voltam agora à seguradora AIG, que conseguiu concessões importantes dos seus reguladores e encontra-se em conversas com os bancos JP Morgan e Goldman Sachs atrás de uma linha de crédito, já que o Fed não pode emprestar diretamente para uma empresa não bancária.

Agora à noite de segunda, as agências de risco S&P e Fitch baixaram a nota de risco da AIG em muitos graus. Segundo analistas isto pode ter um grande impacto na liquidez da seguradora, já que provocaria grande chamada de margem de suas operações em aberto devido à deterioração de sua qualidade de crédito. Há também o problema do Washington Mutual, banco comercial visto como altamente vulnerável.

A situação é bastante fluida, mas a atitude do Tesouro americano nos últimos dias sugere que sairemos dessa crise com um sistema financeiro menos confiante na disposição do governo de salvar quem correu risco e perdeu.

Olhando para o Brasil, apesar de não vivermos em uma ilha isolada, nossa posição nunca foi tão tranqüila para atravessar uma crise como esta. Anos de uma política macroeconômica ortodoxa fizeram muito bem às nossas contas externas, nos deixando muito menos suscetíveis à esses movimentos. Hoje, segunda-feira, a bolsa brasileira teve uma grande queda, com o Ibovespa caindo -7,59%. É impossível saber até quando essa crise vai durar ou quanto mais os ativos vão cair. Mas ao preço atual, para investidores com horizonte de longo prazo, pode ser uma excelente oportunidade de compra de papéis brasileiros.

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