Comentário semanal

Tivemos mais um fim de semana tenso e mais uma segunda-feira dramática, seguindo o que parece ter se tornado a rotina de uma crise que começou um ano atrás no mercado americano de crédito imobiliário e que parece ainda distante de uma solução definitiva.

O foco das atenções neste fim de semana esteve na Europa. No sábado os líderes dos principais membros da União Européia se reuniram em Paris para discutir um fundo comum para resgatar bancos em dificuldades, mas o plano foi vetado pela chanceler alemã Angela Merkel. Os países membros voltaram às soluções locais para os seus sistemas financeiros, apesar do custo. O Governo belga teve que agir para impedir a quebra da sua parte do banco Fortis, o banco UniCredit, o maior da Itália, foi obrigado a anunciar um aumento de capital, e o governo alemão teve que renegociar o pacote de ajuda ao Hypo Real Estate.

O governo alemão anunciou também uma garantia para todos os depósitos nos seus bancos de varejo. Essa garantia implica em uma conta rigorosamente impagável, não só no caso da Alemanha, mas também no caso da Irlanda e dos outros países que ofereceram garantias comparáveis. Além do tamanho astronômico de muitas vezes o PIB desses países, é bom lembrar que depois da criação da união monetária, esses países não emitem mais a moeda que circula por lá, o euro. Isso é responsabilidade do Banco Central Europeu.

O resultado foi que o tumulto na Europa trouxe de volta o medo dos investidores e os mercados globais caíram em uma espécie de movimento sincronizado. O dia começou com quedas de -4% a -5% nos principais mercados asiáticos, e as bolsas européias continuaram a tendência, com baixas de -7,9% em Londres, -9,0% em Paris e -7,0% em Frankfurt. As ações americanas também caíram fortemente. O índice S&P 500, o mais representativo dos principais papéis da bolsa de Nova York, chegou a estar em queda de -8%, mas fechou em baixa de -3,85%. A Bovespa teve um dia bastante agitado, com direito a duas paradas dos negócios devido à queda violenta dos preços. O índice Bovespa, que chegou a cair -15%, fechou em queda de -5,4%.

Esse caso extremo de contágio mostra o quanto os mercados financeiros globais estão interconectados. Esta interconexão, que se dá através das aplicações das instituições financeiras alavancadas, é até certo ponto um fato novo. Os mercados emergentes já haviam visto algo parecido na crise de 1997-98, mas é a primeira vez que isso acontece em escala mundial. Nas palavras de Paul Krugman, que acaba de publicar uma nota de pesquisa sobre o assunto, “somos todos brasileiros”. Ele quer dizer com isso que todas as economias estão sujeitas aos mesmos credores alavancados e, portanto, ao risco de contágio, experiência que já vivemos aqui nas crises passadas que atingiram os mercados emergentes.

Krugman tira as conclusões mais relevantes para as políticas públicas. Em primeiro lugar, o problema central é a falta de capital, e não de liquidez – problema esse para o qual o plano Paulson não foi desenhado para resolver. O que é preciso, segundo Krugman, são injeções de capital, coordenadas, pelas autoridades fiscais pelo mundo afora.

Aqui no Brasil tivemos um dia cheio de notícias. A principal delas, no entanto, talvez seja o reconhecimento por parte do governo de que o sistema bancário brasileiro precisa de atenção. Na sexta-feira passada o BC editou uma norma que tentava incentivar os grandes bancos a comprar a carteira de crédito de bancos menores, tendo como incentivo a redução do compulsório. Porém parece que essa medida não surtiu efeito: segundo relatos da imprensa, o governo acaba de editar medida provisória que permite ao Banco Central aceitar as carteiras de empréstimos de bancos privados como lastro em operações de redesconto.

Em outras palavras, o BC poderá emprestar dinheiro a esses bancos tomando suas carteiras de empréstimos como garantia. Além disso, o BC tem agora autorização para fazer empréstimos em moeda estrangeira. Os relatos da imprensa sugerem que essas medidas foram criadas para ajudar bancos pequenos e médios, que estariam encontrando dificuldades para fechar seu caixa, e para facilitar o financiamento das nossas exportações, conforme comentamos na semana passada. Aproveitamos para repetir também que, como regra geral, em um momento como esse é bom ter aplicações em grandes instituições, mais protegidas quanto a esse tipo de problema.

As medidas tomadas pelo BC brasileiro se assemelham bastante às tomadas pelo Fed, no sentido de prover a liquidez necessária para um sistema financeiro que está travado. Dependo da evolução da situação poderemos ver um movimento de consolidação do setor bancário, o que nesse caso seria muito positivo para o sistema como um todo. A única coisa que podemos prever é que teremos ainda muita turbulência pela frente.

Veja aqui o acompanhamento de fundos distribuídos pela Benchmark.

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