Archive for novembro \25\UTC 2008

Volatilidade extrema

novembro 25, 2008

Do Bespoke Investment Group, via Big Picture, uma estatística impressionante. Nos últimos 50 dias de pregão o índice S&P 500 andou, na média, 3,8% por dia, seja para cima, seja para baixo. Nunca se viu nada igual na história do índice.

Comentário semanal

novembro 25, 2008

Segunda-feira foi um dia muito bom para os mercados de ações e, principalmente, para as ações das empresas financeiras nos mercados americanos. A notícia do salvamento do Citigroup pelo Tesouro americano foi recebida com alguma euforia. As ações do banco subiram +59%. Na média, as ações de bancos que fazem parte do índice S&P 500 avançaram +21% no dia. O índice S&P como um todo fechou em alta de +6,5% e o Dow Jones subiu +4,9%. A animação chegou aqui também e o índice Bovespa subiu +9,4%.

Esta reação eufórica talvez tenha mais a ver com os defeitos do que com as qualidades do plano de salvamento do Citi. O plano é razoavelmente simples. O Tesouro dos EUA comprou US$ 20 bilhões em ações preferenciais do Citi, que pagam um dividendo anual de 8%, e recebeu mais US$ 7 bilhões dessas ações como remuneração pela garantia do Tesouro americano sobre US$ 306 bilhões de ativos podres do balanço do banco – garantia essa válida por até dez anos. O Tesouro americano não exigiu mudanças na diretoria do Citi, nem parece ter pedido nenhuma mudança substancial na maneira como o banco é administrado além de uma redução dos seus dividendos anuais.

Em outras palavras, a injeção de capital custou muito pouco para os atuais administradores do banco e para os investidores que carregam seus títulos de renda fixa. Os acionistas vêm sofrendo com a queda do preço de seus papéis, mas não foram prejudicados por uma diluição excessiva de suas posições. A operação de salvamento era necessária. Se existe alguma instituição no mundo que é grande demais para quebrar, essa instituição financeira é o Citigroup. Mas os termos e condições do pacote de ajuda parecem excessivamente lenientes, e o precedente criado aqui pode custar caro no futuro. Fica cada vez mais difícil para Washington negar ajuda financeira para as montadoras de automóveis, e para os outros que certamente aparecerão depois delas com o chapéu na mão.

O cenário econômico é sombrio. De acordo com o Bloomberg, o governo americano já se comprometeu a fornecer mais de sete trilhões de dólares em resposta à crise financeira. Uma catástrofe parece ter sido evitada, mas há fortes indicações de que os bancos vão precisar de mais capital. Além disso, uma recessão profunda e prolongada nos EUA é cada vez mais provável.

Diante desse panorama, o impulso de muitos investidores é de buscar opções mais conservadoras, abandonando as ações para comprar títulos do tesouro. Essa troca, no entanto, pode ser um erro fatal, como demonstra o economista Brad DeLong em um comentário recente. Segundo o economista de Berkeley, os preços das ações são função principalmente das perspectivas de resultados das empresas que as emitem e da percepção de risco dos investidores. Apesar da crise, as boas empresas não perderam suas perspectivas de rentabilidade no longo prazo, e os preços de suas ações devem se recuperar quando as percepções de risco se ajustarem. O desafio é escolher bem as ações com melhores perspectivas, e manter o sangue frio diante das violentas oscilações de preços que devem ainda continuar por um bom tempo.

Veja aqui o acompanhamento de fundos distribuídos pela Benchmark.

Sobrecarga de informação

novembro 24, 2008

Brad DeLong publica uma lista de coisas que vale a pena ler, só da semana passada: São 25 links sobre economia e 24 sobre política, incluindo blogs, papers acadêmicos, reportagens e matérias de opinião. Em parte o volume se explica pela aceleração dos acontecimentos dentro da crise. Mas não deixa de ser impressionante a quantidade e qualidade de material disponível gratuitamente na internet.

Comentário semanal

novembro 18, 2008

O grande assunto do fim de semana que passou foi o encontro dos representantes do Grupo dos 20 em Washington para discutir a reforma do sistema financeiro internacional. Jornalistas e comentaristas têm falado com freqüência em um “novo Bretton Woods” ou em um “Bretton Woods 2”. É um enorme exagero, que não ajuda nem a entender os objetivos da reunião nem a avaliar os seus resultados.

Há razões de sobra para acreditar que o sistema financeiro internacional precisa de atenção. As últimas estatísticas indicam que as principais economias do mundo (Estados Unidos, Europa, Japão) estão entrando em recessão. A redução da demanda nesses países é um problema sério para a China, cujas taxas de crescimento ainda dependem bastante das exportações de bens de consumo para os países ricos. Um resultado dessas exportações é o grande acúmulo de reservas pelos chineses, que investem esses recursos em títulos dos EUA, ajudando assim a financiar o enorme e crescente déficit do governo americano.

O comércio internacional é outro motivo de preocupação. A retração do crédito cria dificuldades para as empresas exportadoras, que não conseguem obter linhas de financiamento com a facilidade com a qual estavam habituadas. E o fantasma do protecionismo sempre mostra as caras em horas como essa e só pode ser afastado através da ação coordenada dos governos.

Medidas coordenadas na supervisão e fiscalização dos sistemas financeiros também são possíveis. A crise está mostrando o quanto os mercados financeiros ao redor do mundo são interligados, o que significa dizer que os problemas não ficam isolados. É necessário, portanto, reforçar não só os sistemas nacionais de supervisão bancária como também os mecanismos de cooperação entre os países do mundo.

O fato do G-20 ter sido convocado para essa discussão já indica que houve uma mudança importante na governança da economia global. Alguns anos atrás uma crise dessas dimensões teria sido assunto para os países mais ricos do mundo, os membros do G-7. E o resultado da reunião corresponderia quase sempre aos desejos dos americanos, a potência hegemônica desde o fim da segunda guerra mundial. Uma questão importante é saber se essa “democratização” da governança global pode trazer resultados superiores.

Com muitos participantes e sem liderança clara, o mais provável é que se produza um acordo em termos muito gerais, sem grandes ambições. Parece ter sido esse o resultado da reunião de Washington. Descontadas as expectativas exageradas criadas pela conversa de “novo Bretton Woods”, o que se produziu foi uma declaração de (boas) intenções. Agora é preciso ver se as promessas de coordenação de políticas fiscais e de cooperação na supervisão bancária serão colocadas em prática.

Veja aqui o acompanhamento de fundos distribuídos pela Benchmark. A maior parte dos fundos multimercado com posições relevantes nos mercados de juros estão com boa performance em novembro. Já os fundos que investem mais em ações estão sofrendo junto com a bolsa, que está com rentabilidade acumulada no mês de -3,94%.

Ainda veremos muita volatilidade, mas aos preços de hoje acreditamos que o investimento em ações deverá trazer um bom retorno nos próximos 12 meses.

A raiz da crise financeira

novembro 12, 2008

Michael Lewis é o autor de Liar’s Poker, um dos melhores livros já escritos sobre Wall Street. Ele voltou à cena do crime, por assim dizer, em um longo e indispensável artigo para o site da revista Portfolio. Lewis argumenta que a raiz da crise está na abertura de capital dos bancos de investimento, movimento que começou com a Salomon Brothers em 1986. Até então, esses bancos eram partnerships, ou seja, o capital pertencia aos seus executivos. Havia, portanto, um alinhamento total de interesses. A partir do momento em que os bancos de investimento passaram a birncar com o dinheiro dos outros, a sua propensão a assumir riscos insanos aumentou muito. Esse é o ‘X’ do problema.

Comentário semanal

novembro 11, 2008

Os eleitores americanos escolheram um novo presidente na semana passada. Apesar de sua posse só ocorrer no dia 20 de janeiro, o presidente-eleito Barack Obama encontra-se sob enorme pressão para indicar os rumos da sua política econômica – e também os nomes dos executores dessa política.

A pressão sobre Obama não se deve apenas às expectativas criadas por uma campanha que falou muito em mudança. O problema é que as últimas notícias e estatísticas indicam que os desdobramentos da crise financeira sobre a economia americana e sobre a economia global ainda estão longe de esgotados, a situação dos sistemas financeiros e das economias do mundo permanece delicada, e muitas decisões difíceis terão que ser tomadas nos próximos dias, semanas e meses. A volatilidade dos mercados, oscilando em função das notícias, é reflexo disso. A alta na abertura de segunda-feira, embalada pela notícia de um pacote de estímulo na China, acabou cedendo e os índices Dow Jones e S&P 500 fecharam em queda de -0,82 e -1,27% respectivamente. O índice Bovespa devolveu os ganhos do início do pregão e fechou em alta de +0,30%.

O caso da AIG mostrou que problemas que pareciam resolvidos podem voltar a trazer novas dores de cabeça para os governos.  A seguradora divulgou na segunda-feira seu resultado para o terceiro trimestre do ano. Foi a quarta perda consecutiva, um prejuízo de US$ 24,5 bilhões. A empresa anunciou também que renegociou os termos do pacote de ajuda que recebeu do Tesouro americano menos de dois meses atrás, reduzindo o valor do empréstimo de US$ 85 bilhões para US$ 60 bilhões. O pacote, no entanto, cresceu, pois o Fed adquiriu US$ 40 bilhões em ações preferenciais emitidas pela AIG e US$ 52,5 bilhões em títulos lastreados em hipotecas de sua carteira.

Essa renegociação do acordo levanta uma série de questões. Não teria sido possível deixar essa decisão para o próximo governo? A AIG não agüentaria mais três meses? O Tesouro estaria tentando evitar um colapso do mercado de “credit default swaps”, onde a AIG era muito importante? Seja como for, a decisão de ampliar o pacote de ajuda dificulta muito a posição do governo nas discussões com as montadoras de automóveis. A sua situação financeira periclitante foi um dos temas de hoje nos mercados, graças a um relatório de analista de investimento dizendo que sem ajuda do governo a GM só tem dinheiro para funcionar até dezembro. Um resgate da indústria automobilística americana provavelmente não é uma boa idéia do ponto de vista econômico, mas talvez seja politicamente inevitável.

Não sabemos o que Obama faria de diferente nesses casos. Economistas como Paul Krugman e Brad DeLong sugerem que ele deve colocar em prática um plano agressivo de estímulo econômico e de investimento em infra-estrutura, deixando para mais tarde o problema do déficit fiscal. Quanto ao sistema financeiro, o novo governo terá muito o que fazer, tanto do ponto de vista da regulação de bancos e de entidades não-bancárias, como do ponto de vista da administração do TARP e dos outros programas criados pelo governo Bush.

No resto do mundo a grande notícia dos últimos dias foi o programa de estímulo fiscal anunciado pelo governo chinês, que se propõe a gastar mais de US$ 500 bilhões nos próximos dois anos em projetos de infra-estrutura. É uma boa notícia para os países fornecedores de insumos, como o Brasil, mas ainda não está claro se essa cifra se refere a dinheiro novo, e nem qual será o seu ritmo de desembolso. Mesmo com o Ibovespa subindo apenas +0,30% as ações da Vale fecharam com forte alta de +4%, devida em grande parte ao anúncio deste pacote.

Veja aqui o acompanhamento de fundos distribuídos pela Benchmark.

Obama presidente

novembro 5, 2008

Vai surgindo um consenso por aí que a campanha de John McCain começou a afundar no final de setembro, no momento em que o candidato não foi capaz de articular uma resposta coerente à crise financeira que ameaçava derrubar a economia americana.

O estado da economia é provavelmente a mais urgente preocupação do presidente-eleito Barack Obama. A grande questão é saber quem será seu secretário do Tesouro. Larry Summers, Tim Geithner, Robert Rubin e Paul Volcker estão entre os nomes mais falados. Volcker seria a pessoa ideal para o cargo, exceto pelos seus 81 anos de idade.

Comentário semanal

novembro 4, 2008

O mês de outubro, encerrado na última sexta-feira, foi muito ruim para os mercados. O Ibovespa fechou o período com queda de -24,8%, a 37.256 pontos. Porém, é importante destacar que se compararmos ao nível mais baixo alcançado em 27 de outubro, onde o índice da bolsa paulista fechou o dia a 29.435 pontos, tivemos uma alta de +27%. O mês também não foi bom para as ações americanas: o índice Dow Jones caiu -14,1% no período, e o S&P 500 caiu -16,8%, sua pior performance mensal desde o crash de outubro de 1987.

Talvez seja prematuro dizer que o panorama de investimentos já está voltando à normalidade. As notícias ainda mostram muita tensão nos mercados financeiros, um cenário econômico delicado, e algumas mudanças substanciais na maneira como os governos do mundo procuram conduzir a gestão de suas economias.

Hoje, segunda-feira, tivemos a publicação de algumas estatísticas bastante sombrias nos Estados Unidos. A primeira delas foi o índice ISM, um indicador de atividade na indústria manufatureira, que apontou para uma forte queda de atividade no mês de outubro. Além disso, as empresas consultadas indicaram também queda nos pedidos de clientes no exterior, o que significa que as exportações americanas devem perder velocidade.

Confirmando a tendência de recessão, as montadoras de automóveis divulgaram as suas vendas de veículos para o mesmo período: quedas de -45% e -30% para General Motors e Ford, respectivamente. Segundo as empresas, o principal responsável por esse desempenho é a extrema escassez de crédito.

Os sistemas financeiros seguem operando de maneira bem diferente daquela que era a habitual antes do período mais agudo da crise, marcado pela quebra da Lehman Brothers. A diferença pode ser constatada no balanço do Fed, o banco central americano. No final do mês de outubro esse balanço chegou a US$ 1,9 trilhão, um trilhão a mais do que no início do ano. Esse valor inclui centenas de bilhões de dólares em programas de apoio aos bancos comerciais, programas de aquisição de “commercial paper” e linhas de swap de moedas com bancos centrais estrangeiros, entre outros ativos. Até com o Banco Central do Brasil o Fed criou uma linha de swap.

Essa proliferação de programas e linhas tem sido essencial para impedir um travamento dos mercados financeiros. A aquisição de ações dos bancos americanos pelo governo também tem sido um instrumento importante. Segundo o Wall Street Journal, os funcionários do Tesouro esperam que 1.800 instituições peçam para participar do programa nas próximas semanas. A percepção dos banqueiros americanos, segundo o WSJ, é o contrário daquilo que entenderíamos como normal: eles parecem temer que a não participação no programa crie o estigma de bancos quebrados.

Aqui no Brasil já sentimos uma grande mudança em nosso sistema financeiro com o anúncio da fusão do Itaú e Unibanco, segundo e quarto colocados no ranking das instituições financeiras privadas brasileiras, criando o maior conglomerado financeiro do hemisfério sul. Essa consolidação foi boa para a saúde do sistema financeiro nacional e muito boa para as instituições: as ações tanto do Itaú quanto do Unibanco fecharam com fortes altas.

Em um sentido, no entanto, acreditamos que estamos voltando à normalidade. O risco de implosão do sistema financeiro global parece ter sido afastado, e os mercados voltam a funcionar como mecanismos de descoberta de preços. Em outras palavras, o momento é adequado para procurar oportunidades de investimentos. Não sabemos ainda quais serão a extensão e a profundidade da recessão nos Estados Unidos, nem qual será o seu impacto aqui no Brasil, mas os mercados hoje estão a preços bastante deprimidos.

Veja aqui o acompanhamento de fundos distribuídos pela Benchmark.

Outubro foi um mês muito difícil, de estresse e liquidação de posições. Contudo com a normalidade voltando aos mercados de crédito devemos ver uma recuperação das cotações no futuro próximo.