Archive for dezembro \23\UTC 2008

Comentário semanal

dezembro 23, 2008

A última reunião do Comitê de Política Monetária do Fed, realizada semana passada, indicou que estamos mais uma vez explorando território virgem em termos de política monetária. Depois de afirmar que as condições dos mercados continuam em deterioração e que as perspectivas para a atividade econômica estão mais fracas, o comunicado diz que na avaliação do comitê a fraqueza da economia exigirá taxas de juros muito baixas nos próximos trimestres. Além disso, o Comitê afirma que daqui para a frente o Fed procurará manter o estímulo à economia e o apoio ao funcionamento do sistema financeiro através das operações de política monetária, e que está estudando os benefícios da aquisição de títulos longos do tesouro americano.

O banco central dos EUA está muito próximo de uma taxa de juros igual a zero, e está procurando outras maneiras de continuar injetando liquidez na economia. A aquisição de títulos do tesouro é uma delas, mas o colunista Martin Wolf, do Financial Times, cita várias outras. O Fed pode, por exemplo, prometer que vai manter as taxas de curto prazo muito baixas por um bom tempo, forçando assim a queda das taxas de longo prazo. Pode emprestar diretamente para o setor privado, ou financiar os gastos do governo no nível que achar necessário.

Em outras palavras, enfrentar risco de deflação deveria ser brincadeira de criança para um banco central que pode emitir dinheiro a vontade. Mas isso não quer dizer que os problemas do planeta estão resolvidos, escreve Wolf. O objetivo dessas políticas é trazer a inflação de volta, mas a grande questão é o que fazer quando esse objetivo é atingido. O banco central precisará vender ativos e o governo terá que reduzir seu déficit, pois do contrário a inflação pode voltar a ser um problema.

A extrema volatilidade das taxas de câmbio das principais moedas do mundo nos últimos dias indica que o panorama continua bastante incerto. Nada garante que o mar de liquidez que está sendo injetado na economia mundial se converterá em empréstimos dos bancos para empresas e pessoas físicas. Mas a reação dos mercados indica um certo otimismo, uma crença de que mais cedo ou mais tarde alguma coisa dará certo. Alguns sinais positivos já podem ser enxergados: o TED spread, usado como medida para a condição do mercado de crédito, atingiu seu valor mais baixo desde a quebra da Lehman. Quanto mais baixo o TED spread, melhor a condição deste mercado.

Aqui no Brasil, a ata da última reunião do Copom reforçou a percepção de que o Banco Central vai iniciar em breve um movimento de queda de juros. Para vários economistas, essa queda já estaria mais do que refletida nos mercados de juros.

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Comentário semanal

dezembro 16, 2008

O grande assunto dos últimos dias foi o colapso das operações do gestor americano Bernard Madoff, que por trás de uma fachada de competência e exclusividade aparentemente operava um esquema de pirâmide que custou dezenas de bilhões de dólares aos investidores que confiaram nele.

Madoff não era um gestor de “hedge fund” e sim o controlador de uma pequena corretora que atuava como “market maker” de ações em Nova York e que também geria recursos de terceiros. Com uma brilhante reputação, grande penetração na sociedade de Manhattan e de Palm Beach, e com um histórico de retornos consistentes ano após ano, Madoff atraía investidores do mundo todo. Esses investidores aplicavam em fundos de fundos que por sua vez colocavam seus recursos sob a gestão de Madoff.

Os sinais de que havia algo de errado ali são claríssimos. Os retornos divulgados por Madoff eram sempre extraordinariamente consistentes, da ordem de 0,7 a 1,0% ao mês, mês após mês, ano após ano, sob quaisquer condições de mercado – algo que raramente acontece no mundo real. Ele falava pouco em público sobre as estratégias de investimento que utilizava para obter esses retornos, mas o pouco que dizia não parecia fazer muito sentido, e ninguém conseguia obter resultados sequer parecidos fazendo aquilo que ele dizia fazer. Muitos acreditavam que Madoff se valia das informações privilegiadas a que tinha acesso como market maker para obter esses retornos. Alguns investidores chegaram a fazer reclamações junto a SEC sobre essa questão, que nem é o centro do escândalo atual, mas a autoridade do mercado americano não tomou nenhuma medida.

Ainda há muito que não sabemos sobre o caso Madoff, mas já parece possível tirar algumas lições. A principal delas é bastante óbvia. Não há milagres nos mercados financeiros. Desconfie sempre de gestores que dizem conseguir retornos muito altos e/ou muito consistentes independente das condições de mercado. Como dizia um grande administrador de recursos com quem trabalhei: “se alguém lhe oferecer um investimento que dê 3% ao mês, todo o mês, sem risco, não precisa ter dúvida, é certeza de prejuízo.”

Os mercados globais parecem ter sofrido sob as revelações do escândalo Madoff. Mas as estatísticas econômicas também não estão ajudando a melhorar o humor enquanto se espera o resultado da reunião do comitê de política monetária do Fed que deve ser divulgado amanhã, terça-feira, onde a expectativa é de um corte de 0,5 pp. Hoje o Dow Jones caiu -0,75%; o S&P 500 -1,27% e o Ibovespa -2,68%.

Contudo a semana passada foi muito boa para os mercados aqui no Brasil. A bolsa de São Paulo teve alta de +11,4% no período, o que resultou na boa performance dos fundos de ação e multimercado, que em sua maioria estão com rentabilidade bem acima do CDI no acumulado do mês de dezembro.

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dezembro 9, 2008

A crise que começou no mercado americano de hipotecas para devedores pouco qualificados e que se espalhou pelo mundo financeiro parece ainda longe de ter esgotado seus efeitos. E os economistas ainda parecem longe de um consenso sobre as suas causas, seu desdobramento, e sobre as medidas que os governos já tomaram e ainda devem tomar para ajudar os mercados a voltar à normalidade.

Uma boa ilustração vem do economista Brad DeLong, da Universidade de Berkeley. Ele escreve sobre a relação entre o que aconteceu no mercado de títulos lastreados em hipotecas, um mercado importante mas nem tanto assim, e a destruição de riqueza quase sem precedentes que vimos mundo afora, e pergunta: como explicar que o valor do estoque de capital do planeta caiu, segundo ele, de US$ 80 trilhões para US$ 60 trilhões?

Segundo DeLong, são cinco as razões pelas quais o estoque de capital do planeta varia: a acumulação de poupança, que financia investimentos, que alimentam o crescimento; o fluxo de notícias, que altera as expectativas de resultados futuros; um desconto proporcional ao risco de default, ou seja, de que as obrigações não serão cumpridas; um desconto de liquidez, que exprime a preferência das pessoas por dinheiro na mão; e finalmente um desconto que exprime a maior ou menor tolerância dos investidores ao risco.

Nos últimos dois anos não mudou quase nada no que diz respeito a poupança e investimentos e tampouco houve notícias terrivelmente negativas que pudessem afetar as perspectivas de longo prazo para os investimentos no mundo. DeLong deduz, portanto, que o desaparecimento de US$ 20 trilhões se deve a mudanças nos descontos exigidos pelos investidores. Mas o problema, segundo ele, é que apesar dos economistas terem boas teorias para os descontos de liquidez e de risco, seus modelos nem de longe explicam a magnitude da destruição de riqueza que vivemos.

DeLong acha que a explicação eventualmente surgirá da investigação das limitações cognitivas dos seres humanos. Ou seja, a crise teria a ver com o fato de que a realidade é complexa demais para as nossas cabeças e acabamos exigindo mais descontos pelo que não entendemos. Enquanto isso, continuamos convivendo com uma situação de extrema volatilidade. Ontem, segunda-feira, a notícia de que o Congresso americano deve passar um pacote de ajuda às montadoras de automóveis provocou altas expressivas nos mercados. O índice Dow Jones subiu +3,5% e o S&P 500 se valorizou +3,8%. O índice Bovespa, por sua vez, subiu +8,3%. Só para se ter uma idéia do tamanho da incerteza, de seu nível mais baixo nessa crise até o fechamento de hoje o Ibovespa já apresentou uma variação de +30%.

O outro fator importante por trás das altas de hoje parece ter sido a divulgação dos planos do presidente eleito Barack Obama para investimento em infra-estrutura. O que importa neste momento não é o detalhamento desses planos, e sim o aparecimento de um novo governo com quadros de alta qualidade e com a disposição de fazer o que for necessário para tirar os Estados Unidos da crise.

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