Archive for agosto \25\UTC 2009

Comentário semanal

agosto 25, 2009

A recuperação da economia americana ainda corre o risco de sofrer uma interrupção se o Fed não dosar corretamente a política monetária nos próximos meses. Essa é a grande lição que os economistas estão tirando do que aconteceu em 1937, segundo o Wall Street Journal.

O problema é dosar o estímulo de maneira a evitar, por um lado, uma nova recaída na recessão, e por outro os riscos de crescimento explosivo do déficit público, da dívida, e, no médio e longo prazo, inflação. O consenso dos economistas hoje é que o declínio econômico que começou com a quebra da bolsa de Nova York em 1929 já tinha perdido muito da sua capacidade de assustar por volta de 1933. Uma série de erros de política econômica, no entanto, fez com que os EUA voltassem a uma profunda recessão em 1937.

Os erros foram tanto de política monetária como de política fiscal. O Fed, observando os altos níveis de caixa mantidos pelos bancos, exigiu que eles aumentassem seus volumes de reservas, provocando assim um aperto monetário. Ao mesmo tempo, o executivo reduziu gastos enquanto entravam em vigor aumentos de impostos. O resultado foi uma recessão em W, prolongando o sofrimento.

A lição foi aprendida. Economistas como Ben Bernanke, presidente do Fed, e Christina Romer, presidente do Conselho de Assessores Econômicos, são estudiosos da Grande Depressão e estão decididos a não repetir o erro de suspender as medidas de estímulo antes da hora. Mas isso não quer dizer que não existe risco do outro lado. A expansão considerável do déficit fiscal e da dívida pública americana são assuntos sérios, que precisarão ser tratados com responsabilidade assim que a economia estiver novamente em uma trajetória de crescimento sustentado. E o balanço patrimonial do Fed também deverá voltar ao normal, assim que as condições o permitirem.

Questões fiscais também estão na pauta aqui no Brasil. Os jornais divulgaram trabalho de economistas ligados à oposição que identifica uma trajetória perigosa de crescimento dos gastos de custeio do governo federal. O governo alega que está fazendo política anticíclica, mas o argumento não convence já que gastos de custeio não podem ser facilmente reduzidos quando a economia voltar a crescer mais vigorosamente. Na impossibilidade de uma boa reforma tributária – impossibilidade essa já admitida pelo responsável pelo assunto no Ministério da Fazenda – a trajetória preocupa.

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Comentário semanal

agosto 18, 2009

A segunda-feira foi de queda para a maioria dos mercados no mundo. Quem deu o tom foi a bolsa de valores de Xangai, com queda de -5,8% no seu índice Composite. O movimento de baixa se repetiu ao redor do globo, com baixas de -1,5% em Londres (índice FTSE 100) e, em Nova York, de -2,0% no índice Dow Jones e -2,4% no índice S&P 500. O índice Bovespa, por sua vez, caiu -2,51%.

A economia chinesa tem sido uma das poucas histórias de crescimento do planeta nos últimos meses, e muitos economistas e investidores esperam que a China seja a locomotiva que puxará o trem da economia global, tirando-a da recessão. Além disso, o governo chinês ainda aplica os dólares de seu superávit comercial e do investimento estrangeiro na China adquirindo principalmente papéis do governo americano – o que coloca aquele país no coração das finanças globais.

Isso não quer dizer, necessariamente, que uma correção no mercado de ações chinês represente o início de uma correção dos mercados globais, como sustentam alguns comentaristas. A incerteza no mercado chinês parece ligada aos temores de que as medidas de estímulo implementadas pelo governo daquele país estariam se esgotando, e que o resultado será uma recuperação em “W”, ou seja, com nova redução na atividade antes de uma retomada mais duradoura.

Ao mesmo tempo, alguns comentaristas parecem estar à procura de qualquer gatilho para uma correção que acreditam inevitável. Um exemplo, entre muitos: o blog Naked Capitalism trouxe hoje, segunda-feira, um “post” enumerando as razões para o pessimismo: problemas (ainda) no sistema bancário americano, consumidores esgotados, um mercado imobiliário ainda problemático, pouca liberdade de ação para o Fed, mais problemas na seguradora AIG, e falta de liderança política em Washington. Na ponta contrária, muitos observadores – como a estrategista Abby Cohen, do Goldman Sachs – afirmam que a recessão já terminou e vêem fortes sinais de retomada nos lucros das empresas americanas.

A questão maior no momento parece ser a relação entre a recuperação econômica e a recuperação dos mercados. A enorme injeção de liquidez patrocinada pelo Fed e por outros bancos centrais mundo afora ajudou a acelerar a alta dos mercados de ações. Resta saber se ainda há espaço para novos movimentos de alta e se a economia real será capaz de confirmar as expectativas já implícitas nos preços dos ativos.

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agosto 11, 2009

O economista Paul Krugman argumentou, em uma coluna recente, que o risco de uma nova grande depressão já parece ter sido definitivamente afastado. A atuação do governo americano, segundo Krugman, é a maior responsável por este resultado. Os gastos “automáticos”, que independem de decisão política e que continuam acontecendo mesmo quando as receitas caem, criando, portanto, um efeito estabilizador, são os instrumentos que mais deram resultado. Há também o resultado dos pacotes de resgate do sistema financeiro que, apesar de (na opinião do economista) mal desenhados e mal implementados, impediram que a crise bancária tivesse um impacto ainda maior. Por fim, houve também o pacote de estímulo do presidente Barack Obama. Insuficiente, segundo Krugman, mas melhor do que nada.

O estado da economia ainda preocupa, escreve Krugman. Ainda não sabemos qual será o tamanho da recessão em curso. É verdade que os estudos indicam que economistas não costumam acertar nas suas previsões para a extensão e profundidade das recessões, e que as empresas que cortaram postos de trabalho agressivamente nos últimos meses terão que contratar rapidamente quando a economia voltar a crescer. Seja como for, parece estar surgindo um consenso de que nos Estados Unidos o pior já passou. Os dados de emprego publicados na última sexta-feira parecem apontar nesta direção, mas ainda há grande incerteza quanto ao vigor dessa recuperação.

O economista Tim Duy, por exemplo, levanta uma série de questões interessantes no seu blog, Economist’s View. Ele acredita que o consumidor americano permanece desanimado e cauteloso, e que seus padrões de gastos mudaram de maneira mais ou menos permanente, em favor de produtos mais básicos, com margens de lucro menores para seus produtores, sejam eles fabricantes de sabão em pó ou construtores de novas casas. O que apontaria para uma recuperação lenta da economia e dos níveis de emprego.

Quanto ao resto do mundo, alguns países estão melhor preparados para um desempenho econômico superior nos próximos meses. A análise do site RGE Monitor, do economista Nouriel Roubini, aponta para o óbvio: vai se sair melhor quem tem fundamentos sólidos e políticas corretas. O Brasil aparece bem na fotografia, graças a fatores como um sistema financeiro sólido e relativamente isolado e alguma capacidade de resposta fiscal. Resta saber se a relativa disciplina dos últimos anos se manterá no ano eleitoral de 2010.

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Comentário semanal

agosto 4, 2009

Os bons resultados dos bancos britânicos HSBC e Barclays, divulgados nesta segunda-feira, ajudaram a animar os mercados, junto com as esperanças de melhor demanda para matérias-primas. O mercado brasileiro segue a tendência positiva. Ao fechar na segunda-feira ao nível de 55.997 pontos, o índice Bovespa volta ao patamar atingido pela última vez em agosto de 2008, antes do colapso da Lehman Brothers.

A crise financeira global levou muita gente a questionar o valor do banco central independente, e o Financial Times defende, em editorial, essa instituição que tem sido tão bombardeada não só por comentaristas mas também por políticos que parecem estar se aproveitando de um momento de vulnerabilidade para tentar conquistar de volta a influência que tiveram no passado distante.

Essa discussão não ocorre só no Brasil, onde comentaristas alinhados com uma certa visão intervencionista insistem em dizer que o BCB deveria jogar fora o sistema de metas de inflação para se concentrar apenas na tarefa de salvar a economia brasileira da catástrofe, como se não fosse possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Segundo o colunista John Plender, do FT, sinais de impaciência vêm do Japão, da Inglaterra e dos Estados Unidos. A chanceler alemã Angela Merkel também criticou publicamente o Banco Central Europeu, algo sem precedentes na história da República Federal da Alemanha, onde a independência da autoridade monetária é dogma absoluto.

Nos Estados Unidos existe uma antiga tradição de crítica populista ao Federal Reserve Bank, visto por muitos como uma instituição que serve aos interesses dos banqueiros e não do povo. Essa tradição voltou a ganhar força recentemente com as medidas que o Fed se viu obrigado a implementar para evitar o colapso do sistema financeiro americano, estendendo várias linhas de crédito diferentes aos bancos americanos.

O pior da crise parece já ter passado, mas ainda são várias as questões com relação ao desempenho dos BCs. Martin Wolf sugere em comentário recente que o sistema financeiro que está emergindo é ainda mais carregado de risco moral do que era aquele de antes da crise, e que a recuperação da economia mundial será lenta e difícil, sem respostas duradouras para problemas como o funcionamento do sistema monetário mundial, ainda baseado no dólar, ou dos fluxos internacionais de recursos, ou das vulnerabilidades das economias emergentes.

O princípio da independência dos bancos centrais, no entanto, parece mantido. Como escreveu Robert Peston, editor de economia e negócios da BBC, o desencanto com as soluções de mercado não parece trazer consigo uma crença forte nos poderes de intervenção dos governos. Assim, é grande a chance de que teremos mais do mesmo, por falta de idéias melhores.

Veja aqui o acompanhamento dos fundos distribuídos pela Benchmark. No mês passado, tanto os fundos de ações como os fundos multimercado com posições em bolsa apresentaram boa rentabilidade. Contribuiu também para a performance positiva dos fundos multimercado a valorização do real frente ao dólar, já que muitos desses fundos tinham posições vendidas na moeda americana.